Daúde mostra personalidade em novo disco

Baiana residente no Rio, a cantora Daúde só foi encontrar em Londres as condições adequadas para lançar seu quarto CD, Neguinha te Amo (Real World/EMI), o mais consistente de sua carreira. Brasileira e internacional, libertária e distinta, coerente e apimentada, ritmada e perspicaz, sua música não se enquadra no padrão imediatista que interessa às grandes gravadoras em crise. As investidas infrutíferas a levaram a integrar o cada vez maior elenco dos artistas independentes. A rigor, é o setor onde reside a música de qualidade. Mas com o cerco se fechando, as perspectivas diminuem. "Hoje os grandes vendedores de discos estão ocupando os espaços menores onde artistas como eu se apresentavam", constata Daúde. Em todas as portas que bateu ela ouviu as mesmas respostas: "Seu disco é do tipo que precisa ser trabalhado com atenção. Não podemos investir nisso agora." Em vez de chorar miséria, a cantora decidiu bancar a produção do próprio bolso e tentar a sorte no exterior com o disco pronto. "A inconveniência de ser independente é que você tem de competir com a mesma qualidade técnica que os contratados de uma major e isso pesa no orçamento", diz. A trilha aberta na Europa, onde já fez várias turnês e teve os álbuns anteriores lançados, facilitou a aproximação com a Real World. A gravadora de Peter Gabriel, uma das mais fortes no setor que se convencionou chamar de world music, foi a única a acatar o trabalho sem propor qualquer modificação. O resultado a crítica européia endossou unanimemente. O caminho até lá teve outros percalços. Neguinha te Amo foi co-produzido por Daúde e pelo inglês Will Mowatt, que já tinha trabalho com a cantora em seu segundo álbum. Houve um choque de culturas. Mowatt queria dar um ar de lounge, com a sonoridade bossa nova dos anos 60 que virou sinônimo de modernidade. Daúde até gravou um clássico da bossa (Canto de Ossanha, de Baden Powell e Vinicius de Moraes), mas reconhece que está longe de ser a Bebel Gilberto da vez. "Respeito quem faz esse tipo de som. Antes isso do que nada. Mas sei que estou além dos clichês brasileiros, tenho outra vertente para mostrar" explica. "Eu tinha certeza de que queria um som limpo e forte." Isso se traduz em sutilezas percussivas que harmonizam com texturas eletrônicas, melódicas guitarras e metais. "O conceito que tinha em mente desde o início era uma apologia ao negro, no que tem de bom humor, esperança e importância cultural que o Brasil respira." Em suma, uma maneira de protestar sem rancor. Muito Quente abre a sessão com suingue funk-jazz, de maneira sorridente. Das reminiscências, Daúde foi buscar a marchinha carnavalesca Alá-lá-ô (Haroldo Lobo e Antônio Nássara), que casa com Naja (Paulinho Camafeu) nas referências árabes. Ilê Ayiê (Camafeu), gravadas antes por Gilberto Gil e O Rappa, Crioula (em dueto incendiário com o autor Jorge Benjor) e Uma Neguinha (um mimo de Paulo Padilha) formam o bloco de celebração da negritude. Alá-lá-ô e o samba Dora (de Aniceto Menezes do Império) compõem a melhor síntese entre o ancestral e o contemporâneo, em arranjos tão irrepreensíveis quanto a interpretação. Daúde ainda ganhou uma letra inédita de Pierre Barouh (J´ai Rêvé), sobre a mesma melodia de Moska em Sans Dire Adieu. Ambas citam com propriedade o tema do filme Um Homem, Uma Mulher, do qual Barouh é co-autor. É o momento "lounge", que Daúde tanto evita, mas abre brechas para expandir no mercado internacional. Mais fácil do que conquistar o Brasil, já que Daúde não pertence a nenhuma panela da MPB.

Agencia Estado,

19 de janeiro de 2004 | 18h51

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