Dara dirige O Elixir do Amor e Milnes vem dar aulas

O primeiro foi um grande baixo-bufo, com aquele tipo de voz talhada para os principais papéis cômicos do repertório operístico; o segundo, viajou o mundo nos anos 70 e 80 como intérprete consagrado dos grandes vilões e almas atormentadas das óperas dramáticas. Com a aposentadoria dos palcos, o italiano Enzo Dara resolveu se dedicar à direção cênica. Já o norte- americano Sherrill Milnes optou por criar um programa de masterclasses. E é pelo envolvimento com suas novas atividades que os dois desembarcam no Brasil. Dara assina a concepção cênica de O Elixir do Amor, de Donizetti, que estréia nesta quinta-feira no Teatro São Pedro. E Milnes traz ao Brasil no próximo mês seu programa Voice Experience, série de masterclasses com que roda ao mundo ao lado da soprano Maria Zouvres. O Elixir foi a primeira ópera cômica cantada por Dara, nos anos 60. E o que preparou para a produção em São Paulo? "É uma montagem tradicional com pequenas novidades", ele diz. "Se bem que eu não me preocupo com essa oposição entre tradicional e moderno. Precisa ser uma bela direção, bem feita, consistente. Dulcamara com barba de Fidel Castro não faz o menor sentido. Ficar inventando moda e enrolação é fácil demais, não vale a pena." Dulcamara é o charlatão que vende ao jovem Nemorino a poção falsa com a qual ele acha que vai conseguir o amor da jovem Adina, disputado também por Belcore. A produção, levada a cabo pela Cia. Ópera São Paulo, tem um elenco invejável: a soprano Edna D?Oliveira, o barítono Rodrigo Esteves, o baixo Pepes do Valle e o tenor Miguel Geraldi. A regência é de Emiliano Patarra, criador da Sinfônica Jovem de Guarulhos, que acompanha os cantores. Dara começou a carreira em papéis sérios. Na verdade, "para caso o canto não desse certo", formou-se jornalista. Mas o fato é que o canto deu muito certo. E, no fim dos anos 60, com O Elixir, ele receberia a confirmação de que seria no repertório de comédias que encontraria seu caminho, reforçada, em 1971, com sua estréia no Scala de Milão cantando em O Barbeiro de Sevilha, com regência de Claudio Abbado. "Cantei com Abbado durante 24 anos", ele diz, orgulhoso. Por que tamanha fidelidade a um maestro? "Como assim? Abbado é que foi fiel a mim", ele brinca. Bem humorado, escrachado, Dara é assim mesmo. Prega peças, se diverte. Mas no final faz questão de explicar a fascinação com Abbado. "Foi um grande presente encontrá-lo. Ele me ajudou a entender a nobreza nos personagens cômicos. Não se pode cair na vulgaridade. Há uma dimensão trágica por trás de alguns deles", diz. Don Pasquale é um bom exemplo, garante. "Se ele se encontrasse com o diabo, faria o mesmo que Fausto", ele diz, fazendo referência ao personagem da ópera de Donizetti, que se apaixona pela jovem Norina. Falstaff, de Verdi, também se encaixaria na descrição. Mas ele não cantou Falstaff? "Que grande papel. Mas não cantei por culpa do Verdi. Se fosse um pouquinho mais grave...". Por falar nisso, e Mozart? E Leporello, o acompanhante trapalhão de Don Giovanni? "Cansaram de me chamar, mas eu nunca podia, estava sempre ocupado. E quando fiquei livre, ninguém mais pediu..." Nem sempre é possível fazer escolhas? "Se você não é Domingo ou Pavarotti, de jeito nenhum", brinca. Sherrill Milnes, falando à reportagem de sua casa na Flórida, gostou de saber que Dara estava em São Paulo. "Não vou dizer que somos velhos amigos, mas cantamos muito juntos, quando eu fazia O Barbeiro de Sevilha", ele lembra. Figaro talvez seja o personagem cômico mais celebrado. "Mas os papéis dramáticos sempre foram mais importantes em minha carreira", diz Milnes. "Para a maioria dos papéis cômicos, minha voz era aguda demais. Mas eu tive sorte. Em nenhum momento apareceu um papel para o qual eu não estava pronto." "Estar pronto" tem significado específico na cartilha de Milnes. E foi por isso que criou o Voice Experience. "O conceito é simples. Oferecemos ajuda a jovens cantores. Uns precisam refinar a técnica; outros precisam preparar papéis; é preciso também trabalhar as qualidades interpretativas. O mundo do canto mudou. Ninguém esperava que Caruso interpretasse um papel como Laurence Olivier. Mas, hoje, a expectativa é diferente. Ao mesmo tempo, o preparo é cada vez menor. Não é porque você tem boa memória e consegue aprender um papel em uma semana que está pronto para cantá-lo. Eu passei um ano estudando Iago antes de subir ao palco. Para cantar, me ensinou Ruggiero Raimondi, o baixo italiano, você precisa conseguir cantar o papel até enquanto dorme, tamanho deve ser o envolvimento. Um papel como Scarpia, por exemplo, é muito rico, você tem que aprender palavra por palavra. Isso leva tempo. Apareceram bons Otelos depois de Plácido Domingo? Sim, mas nenhum com o envolvimento e a profundidade que ele soube dar ao papel, com certeza." Conversar com Milnes é dialogar com a história da ópera nas últimas décadas. Rigoletto, Macbeth, Scarpia, Posa, Iago, Gerard e tantos outros papéis-chave do repertório dramático - todos ele interpretou no palco. E gravou. Ele foi o vilão titular da série de gravações feitas por Plácido Domingo ("Baby Plácido", ele chama) e Leontyne Price para a RCA nos anos 70 e 80. São registros antológicos - pelos quais Milnes ganhou três Grammys. "Foram anos interessantes. O clima era muito agradável. Ainda bem, porque passávamos, às vezes, quatro meses seguidos em estúdio. Aliás, é uma armadilha na qual eu e Plácido caímos. Gravamos demais." A conversa segue por um bom tempo. E nomes como Pavarotti, Bergonzi, Christa Ludwig vão aparecendo com a maior naturalidade. "É um privilégio enorme ter trabalhado com esta gente toda. Eu, quando comecei, ficava ouvindo cantores com oTito Gobbi, Bastianini e tantos outros e ia atrás fazendo perguntas, querendo dicas. Eles deviam me achar um chato mas, e daí?" Agora, a situação se inverte. E ele avisa aos alunos: podem ser o quão chatos quiserem. As inscrições para as masterclasses com Milnes vão até a segunda quinzena de agosto. Mais O Elixir do Amor, de Donizetti. Teatro São Pedro. Rua Barra Funda, 171, 3667-0499, metrô Mal. Deodoro. 5.ª e sáb., 20h30; dom., 17h. R$ 10 a R$ 40. Informações: www.voicebrasil.com

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