Divulgação/Celia Santos
Divulgação/Celia Santos

Daniela Mercury, um turbilhão de ideias e músicas

Aos 54 anos, a cantora estreia sua turnê nos EUA e se apresenta no Sony Hall, em Nova York

James Gavin, New York Times

17 de setembro de 2019 | 08h42

Assistir a um show da cantora Daniela Mercury, uma das maiores estrelas do Brasil há quase 30 anos, é mergulhar em uma fantasia pulsante e hiperenergizada de sua cidade natal, Salvador, sem dúvida a cidade mais africana fora da África. O palco está repleto de dançarinos em trajes afro-brasileiros; um time de bateristas libera os ritmos do axé, a densidade percussiva do pop de Salvador que Mercury tornou famoso.

Ela atravessa o conjunto, uma presença radiante em constante movimento - juntando-se à coreografia de grupo, entrando aos trancos e barrancos. Enquanto suas produções contam com alguns dos coreógrafos, diretores e músicos mais talentosos de Salvador, os conceitos, muitas das músicas e as escolhas mais importantes são dela.

Então é a atitude. Quase todas as letras têm mensagens - de não discriminação, de tolerância, de direitos das mulheres, de manter a firmeza interior. Esses sentimentos ressoam mais profundamente do que nunca, à medida que o Brasil passa por uma das épocas mais politicamente divididas e voláteis de sua história. Este mês, Mercury, aos 54 anos, está levando suas mensagens para o mundo, como costuma fazer. Ela está no meio de sua última turnê americana, que a levará ao Sony Hall de Manhattan na terça-feira.

Mas as realidades mais duras de casa estão sempre esperando. Falando em português por telefone de Atlanta, ela disse: “A sociedade brasileira está lutando pela democracia, lutando contra o autoritarismo, lutando pela educação. Temos que lutar para defender a natureza, os indígenas, as minorias. Direitos humanos. Isso é muito importante."

Em prol dessas causas, Mercury é embaixadora do UNICEF no Brasil; ela também é conhecida por discordar da política do País. Em 2018, ela ajudou a liderar a campanha #EleNao nas redes sociais antes da eleição do presidente Jair Bolsonaro. Muitos de seus seguidores a boicotaram com sua própria hashtag, #ElaNao.

Cinco anos antes, Mercury, que tem um ex-marido e dois filhos, anunciou a homossexualidade quando se casou com Malu Verçosa, jornalista. O casal adotou três filhos. A capa de seu álbum em 2016, Vinil Virtual, é uma imagem que as pessoas usam contra ela desde então. Com base em uma famosa capa dos Rolling Stones com John Lennon e Yoko Ono, Mercury posa nua enrolada na esposa. Este ano, pelo 50º aniversário de Stonewall, o casal defendeu os direitos dos gays no Congresso Nacional em Brasília, capital do país. Elas terminaram com um beijo.

Qualquer que seja a repercussão, a cantora mantém um tremendo apoio; no ano passado, cerca de 1,5 milhão de pessoas a assistiram no Carnaval de São Paulo. Seu show nos Estados Unidos percorrerá toda a sua carreira, com dançarinos e músicos baianos e elementos de "tudo que me influenciou, que eu valorizo", disse ela. “Estou traduzindo a cultura da minha cidade, as perguntas do meu povo. Mas é muito alegre, muito rítmico. ”

Quando criança, em Salvador, Mercury - nascida em uma família de classe média - estava mergulhada na dança. Ela aprendeu essa arte com crianças da escola; com praticantes de candomblé; e na aula de dança, que ela frequentou por anos. "Eu também queria dançar com a voz", disse ela. “Eu cantei samba muito jovem. Sambas rápidos. Gostei do desafio."

A cantora ficou encantada com os blocos afro, os grupos de bateria de bairros de Salvador. Deles, surgiu o axé, que mesclava samba, reggae e outras batidas africanas, brasileiras e caribenhas com uma força que a dominava. "É algo muito particular, muito inovador, que nasceu em Salvador", disse ela. “Nasceu do povo. As pessoas pensam que as artes populares aqui são muito simples - não. Tocar afro-samba, samba-reggae, é bastante complexo. São ritmos difíceis. ”

A letra a tocou. A palavra axé, ela disse, “significa uma bênção. Uma energia positiva. Axé é uma maneira afirmativa de iniciar discussões contra a opressão. Contra a exclusão social. Contra a discriminação racial. Isso para mim era uma nova linguagem poética.”

Depois de liderar sua própria banda, ela apostou na carreira solo. Seu segundo álbum, O Canto da Cidade, lançado em 1992, teve quatro singles como os mais ouvidos do Brasil e apresentou o axé a um público nacional. Mercury havia dado ao ritmo toques de pop-rock e o apelo sensual necessário para conquistar o mercado pop mais amplo do Brasil e dominar o mercado de música na Bahia, o que faz até hoje. 

A música foi vista por alguns como uma comercialização grosseira do axé dos blocos afro. Mas Antonio Carlos dos Santos Vovô, que fundou o primeiro bloco afro do carnaval de Salvador, o Ilê Aiyê, só admira Mercury, chamando-a de “mãe do axé”. A cantora encontrou outro apoio em Camille Paglia, a estudiosa feminista e crítica social. Paglia chama Mercury de a intérprete que Madonna gostaria de ser.

"Não acho que todo o trabalho dela tenha recebido análises sérias suficientes", disse Paglia em entrevista. Ela afirma que Música de Rua, do álbum de Mercury de 1994, é “absolutamente emocionante. É como uma mini-ópera!"

Paglia também cita o DVD de Canibália, transmitido na televisão durante o Réveillon de 2010 na praia de Copacabana, como “um grupo muito pequeno de grandes e heroicas performances modernas de mulheres”. Naquela noite, com todas as distrações do evento, Mercury e as dezenas de figurinos e coreografias, atraiu cerca de dois milhões de fãs ao levar Salvador ao mar no Rio.

Com a lealdade dos fãs garantida, Mercury está experimentando formas musicais mais puras. Seu som de eletropop praticamente desapareceu. Em uma turnê de 2016, ela até substituiu seus hits por voz e violão, revelando a poesia que às vezes era dominada pelas batidas.

Enquanto isso, ela continua apostando em controvérsias, às vezes inesperadas. Em dezembro passado, ela lançou um vídeo, Pantera Negra Deusa, de uma música que ela escreveu com seu filho Gabriel Póvoas. Mercury canta "A única raça / A raça humana", acrescentando: "O Brasil é preto / E branco é preto / E o índio é preto". Mais tarde, ela canta: "A beleza e os sons do infinito são da África".

Semanas depois, Larissa Luz, uma jovem cantora e atriz negra de Salvador, fez acusações furiosas de apropriação cultural. Luz anunciou para seus fãs: “Quem é preto é preto. Quem não é, não é. Essa música é nossa!” Embora ela não tenha dado nomes, os internautas identificaram Mercury como o alvo dessas declarações, que Luz negou.

Consultado na semana passada, Vovô, que aparece no vídeo de Mercury em 2018, a defendeu. "Daniela é parceira, irmã, amiga", disse ele. "Fazer coisas com ela reforça nossa cultura e nossa luta contra a intolerância e o preconceito."

No telefone, Mercury discutiu o assunto com simpatia. "Sou privilegiada porque nunca fui discriminada com base na minha cor ou no meu cabelo", disse ela. "Eu sou uma aliada na luta contra o racismo por mais de 40 anos e continuarei sendo."

Em todos esses conflitos, ela disse que se esforça para manter a calma. Afinal, seu trabalho é alcançar a unidade. "Eu tenho espírito de diplomata", disse ela. “Eu sempre preferi um diálogo com todos os lados. O problema nunca é apenas governo; é a sociedade. Mas precisamos conversar sobre isso de maneira educada. Lutar de maneira civilizada. Qualquer outra coisa é brutalidade."

 

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