Fernando Vivas|Estadão
Fernando Vivas|Estadão

Daniela Mercury lança o disco 'Vinil Virtual'

Álbum faz manifesto na capa e retoma origens rítmicas

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2015 | 06h00

O lado transgressor de Daniela Mercury, notória rainha do axé, ganhou um alter ego, a rainha má. Essa personagem criada pela cantora vem à tona, com frequência, em sua fala, quando Daniela se refere, por exemplo, à arte como instrumento de reflexão. Ela, a tal rainha, também figura na canção A Rainha do Axé, que abre seu novo disco, autoral, Vinil Virtual, o 15.º solo da carreira. “Sou a Rainha/Eu não sou a Cinderela/Nem a adormecida bela/ Eu sou Daniela/ A rainha má má má/ A rainha má má má”, canta ela, em um trecho, para em seguida emendar risadas malévolas.

Além de se descolar da imagem das princesas indefesas ao se autointitular dessa forma, Daniela, ainda nessa canção, reforça o tom feminista da letra ao convocar o empoderamento da mulher após citar nomes de personalidades fortes, como Luislinda Valois, a primeira juíza negra do Brasil, Simone de Beauvoir, Rita Lee, Maria Bethânia, Raquel de Queiroz, sua mãe Liliana Mercuri de Almeida, entre outras. Ela exalta também a autoestima do brasileiro e de sua cultura. Tudo embalado pela batida forte da percussão, com direito à citação da música Bat Macumba (de Caetano e Gil).

No final das contas, A Rainha do Axé introduz um breve panorama sonoro e conceitual do que se ouvirá ao longo das outras 14 faixas do novo trabalho. O feminismo, a valorização do País, a volta ao seu DNA rítmico – “o meu samba reggae” – que a reconecta ao início de sua carreira solo. Está tudo lá, em letra e música, em Vinil Virtual.

Para corroborar seu manifesto contra a homofobia e qualquer tipo de violência, e em prol da paz e da liberdade, sua rainha má entrou novamente em ação. Daniela queria uma capa artística, “que fosse contrastante com esse ambiente de mesmice”. Convidou, então, sua mulher, a jornalista Malu Verçosa Mercury, para posar com ela numa recriação da histórica foto de John Lennon e Yoko Ono, feita pela célebre Annie Leibovitz, em dezembro de 1980 – poucas horas antes de Lennon ser assassinado. Na cama, Malu, de preto, posiciona-se tal e qual Yoko, e Daniela, nua, envolve a amada com seus braços e suas pernas. “Acho que a cama é um grande tabu. A gente roda, roda e o sexo continua sendo uma grande questão para a humanidade”, acredita Daniela Mercury, em entrevista ao Estado, por telefone, de Salvador. “Quero provocar as pessoas, com a minha nudez, a pensarem, a gerar inquietação, reflexão.”

No mês passado, antes mesmo de lançar o disco, Daniela já divulgava essa capa. Foi uma celeuma nas redes sociais – e houve até quem identificasse um suposto corpo ‘photoshopado’ de Daniela. Aos 50 anos, a cantora baiana diz que já esperava por algo do gênero, de ficarem debatendo sobre sua forma física. “Nesses anos todos, todas as mulheres são educadas a pensar se estão bonitas ou não. Achei que ia ser muito mais julgada por ser mulher, mas acho que a grande maioria das pessoas, talvez pela maneira como foi colocado, como manifesto, entendeu. Quando você contextualiza, fica mais fácil compreender. O Brasil é um país enorme, de gente que pensa de todo o jeito, para se comunicar com essa grande massa, uma foto conhecida pela sociedade já facilita para que minha mensagem chegue mais claramente. Fiz um link com Yoko e John, mas estamos falando de outro momento, e com duas mulheres, num momento de retomada de luta feminina, e de tantas questões, de mulheres líderes que tem de ser respeitadas, querem receber os mesmos salários, o movimento He for She (pela igualdade de gêneros).”

Sobre esse seu novo projeto, Daniela faz um paralelo lembrando de quando colocou o trio eletrônico dentro do carnaval. “Foi para fazer as pessoas refletirem, porque o ser humano vai copiando um ao outro, e não sabe mais o que está fazendo. Então, você tem de quebrar um pouco esse ciclo. Quando as pessoas acham que está tudo organizado, você tem de tirar do lugar um pouco. Parece que tudo já havia sido dito, mas não, né?”

As canções de amor foram pensadas para Malu. Pensadas não, “sentidas para ela”, prefere dizer a cantora. Maria Casaria e Sem Argumento são referências mais diretas, e poéticas, à sua mulher. Sem Argumento, em especial, fala dessa tentativa eterna de se explicar o amor e, como sempre, sem sucesso. “É uma grande pretensão colocar palavra no amor, então preferi priorizar a melodia. As palavras vieram passeando pela melodia, vieram como pura emoção. O amor é sentimento tão impossível de falar, mas é um grande provocador de poesia.”

 

Em 2013, a cantora postou fotos suas com Malu no Instagram, compartilhando assim o novo relacionamento com seus seguidores. Daniela não gosta do verbo “assumir”. “Assumir já pressupõe erro”, justifica ela. E como hoje as pessoas veem a relação do casal? “Sinto que teve um pouco de Uma Linda Mulher, só não sei qual das duas é o Richard Gere (risos). Viramos um casal icônico de amor, sei de gente que mudou de profissão, que mudou de país, que se separou para fazer uma coisa que queria. As pessoas me contam: ‘vocês fizeram aquilo, me inspirei, larguei minha mulher, larguei minha profissão, fiz tudo o que sonhava na vida e não tinha coragem.’ As pessoas resolveram quebrar seus paradigmas, suas barreiras. Essa inspiração radical, uma certa inconsequência que só o amor faz.”

E o disco foi muito construído sob o signo dessa relação, não só nos já mencionados momentos românticos, mas também nas lutas a travar e causas a abraçar. “Malu trouxe um Big Bang em mim”, declara-se Daniela. Ela também faz homenagem ao Rio, em O Riso de Deus, e a São Paulo, em Antropofágicos São Paulistanos (parceria com Yacoce Simões). A capital paulista a inspirou ainda em outros dois momentos: a forte presença dos imigrantes, o que a levou a compor América do Amor, e os diferentes e geniais, em Extranhos Terrestres (Aperto de Mente).

Em outro tributo, fez a bela De Deus, De Alah, De Gilberto Gil, com participação especial do próprio músico, em voz e violão. Em 1989, Daniela fez parte, no vocal, da banda de Gil. “A gente conversava muito, ele sempre estava dançando. Sempre o chamei de bailarino. Tive essa alegria de poder conviver um pouco com ele e perceber como é virtuoso”, lembra. E a rainha má (ou do axé?) se rende ao mestre: “Gil é um deus da música, é encantado. Para mim, ele consegue valorizar os ritmos brasileiros. É uma referência para mim.”

 

Nobre Vagabundo

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Swing da Cor

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