D´Angelo e Femi Kuti encerram festival

Jovens estrelas emergentes da música negra de continentes distintos, o norte-americano D´Angelo e o nigeriano Femi Anikulapo-Kuti têm mais pontos de convergência do que diferenças. Eles foram as atrações do palco principal da derradeira noite do Free Jazz Festival.Ambos reduzem o legado da diáspora da música negra a uma abordagem camp, feita de imagens prontas e comportamento estandartizado - como se afirmassem, a todo momento, que a música negra deveria ser necessariamente epitelial para ser legítima. A abordagem musical de Femi Kuti não se distingue muito das performances de "música nigeriana típica" que são apresentadas naqueles modernos hotéis cinco estrelas que arranham os céus da Lagos urbana.O aeróbico D´Angelo parece querer unir a tradição da soul music da Motown com o discurso e a pose gangsta rap, mas o resultado é apenas esquizofrênico. Não sabe se vai pelo caminho do Funkadelic ou se descamba de vez para o R&B. E sua voz raramente aparece, na maioria das vezes encoberta por backing vocals e gritaria.Ambos, D´Angelo e Kuti, reinvindicam uma atualização das jam sessions sensuais de James Brown, que acaba resultando numa atualização deserotizada e sem suingue. Como Brown, D´Angelo vende a pose de atleta sexual - na metade do show está seminu, exatamente como na capa de seu disco mais recente, Naked. É um Wando marombado, que atira-se à platéia e destroça a bateria.Já Femi Kuti, soterrado pelos teclados e por uma percussão domesticada, tem a seu favor o fato de carregar o fardo de embaixador político que seu pai (o líder nigeriano Fela Kuti) lhe deixou. Esforça-se em manter a mística em canções como Blackman Know Yourself, Truth Don´t Die e outras bandeiras de orgulho negro, mas musicalmente é de uma previsibilidade atroz. Deveria assistir a alguns shows de Gilberto Gil ou de Carlinhos Brown para dar um upgrade no seu som.Mas incomoda menos a ingenuidade de Femi Kuti do que a papagaiada afro de D´Angelo, uma espécie de macumba para turista globalizada. Ainda assim, é bom dizer que ele tem uma banda respeitável, na qual se destaca o valente guitarrista Samuel Jones.

Agencia Estado,

23 de outubro de 2000 | 21h29

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