OTAVIO MAGALHAES/ESTADÃO
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Dalva, Dolores e Elizeth Cardoso são homenageadas pela nova geração

Cantoras da chamada Era do Rádio serão tema de Patricia Bastos, Livia Nestrovski, Virgínia Rosa e Roberta Campos de sexta (30) a domingo, no Sesc 24 de Maio

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 07h00

Dolores, Dalva e Elizeth. As biografias as citam como “mulheres à frente do tempo”, as cantoras as tratam com reverência e a história as coloca em palcos elevados. Dolores Duran, morta aos 29 anos, um talento para compor que as outras não tinham e um entendimento de interpretação próximo ao das cantoras de jazz. Dalva de Oliveira, o “rouxinol brasileiro”, a voz mais elástica, dramática aos extremos, eleita a “Rainha do Rádio”. Elizeth Cardoso, a “Divina”, precisa, sofisticada e com um suingue que não se ouvia na Rádio Nacional. “Dalva tinha um pé na opereta; Elizeth, na gafieira; e Dolores, na boate. Eram os seus hábitats”, diz o pesquisador Ruy Castro.

Desde suas partidas – Dolores em 1959, Dalva em 1972 e Elizeth em 1990 –, a linha de produção de vozes femininas não parou. As orquestras saíram, chegaram violões e os discos comprimidos de 78 rotações se tornaram áudios comprimidos de streamings, deixando pelo meio dos anos 1960 e 1990 um tempo em que a música saía de um sulco negro, entrava por uma agulha e transportava os músicos para as salas de casa. Quando uma cantora de 2019 se coloca diante de uma dessas vozes para homenageá-las cantando suas canções tantos anos depois, o que se faz também é um desafio a tudo o que o tempo tem destruído.

O espetáculo de três noites será de sexta a domingo, no Sesc 24 de Maio. Dia 30 de agosto, sexta, Patricia Bastos e Lívia Nestrovski se dividem nas músicas cantadas por Dolores. A Noite do Meu Bem, Noite de Paz, Fim de Caso e parte do repertório em inglês que ela encarava tão à vontade, como Cry me a River. Sábado, 31, será Virgínia Rosa lembrando Elizeth, com quem já tem intimidade artística legitimada em seu trabalho. Barracão de Zinco, Naquela Mesa, Chega de Saudade (lembrando do disco de 1958 que lançou João Gilberto) e Eu Não Existo Sem Você. O gap geracional é ainda maior na última noite. Roberta Campos canta Dalva de Oliveira, com As Pastorinhas, Bandeira Branca, Ave Maria do Morro e outras.

O Sesc investiu no projeto idealizado pela produtora Debora Venturini e colocou uma orquestra de 12 músicos arranjada pelo diretor Rodrigo Morte, uma atitude que aproxima as interpretações de um espírito de rádio. “Os arranjadores, responsáveis por escrever para esses grupos instrumentais, foram fundamentais para a criação de uma sonoridade típica do período”, fala. Livia diz, sobre Dolores: “Tenho curiosidade em saber o que ela teria sido dez anos depois, já com a bossa nova. Para mim, não é uma dificuldade, mas uma alegria em estar mais uma vez, representando essa cantora tão importante”. Roberta fala de Dalva: “A ideia é homenagear essas cantoras incríveis, então passo a ser somente uma intérprete, deixando um pouco a compositora e instrumentista de lado”. E Virgínia pensa assim: “Eu serei Virgínia Rosa cantando, interpretando com todo o carinho e respeito a obra da Divina Elizeth do meu jeito, com as minhas características”.

ELAS CANTAM NO RÁDIO 

Sesc 24 de Maio. R. 24 de Maio, 109; tel. 3350-6256. 6ª (30),  

sáb. (31), 20h e dom. (1º/9),  

18h. R$ 40 

AS CANTORAS FALAM DE SUAS RAINHAS

Dolores Duran, por Lívia Nestrovsky e Patricia Bastos

Patrícia:

"Dolores é uma grande representante do canto apaixonado. Dessa força que move a gente chamada amor. A dificuldade em cantá-las é ouvir/sentir aquelas palavras e transparecer da melhor maneira essa alma de Dolores. É fazer tudo como ela merece. Eu escuto Dolores desde criança, ela faz parte da minha formação como cantora. Então, minha intenção é homenageá-la, sem copiar. Porque, no fundo, já trago um pouco da sua impressão digital no meu canto, justamente por ela ter feito parte do meu aprendizado como cantora. E toda cantora precisa ouvir e respeitar Dolores, Elizeth, Dalva. . ."

Livia Nestrovisky:

"Os tempos mudaram muito, essas grandes artistas do rádio representavam as grandes personalidades do Brasil. Hoje, os ícones são outros e até mesmo o conceito de artista mudou. Elas nunca serão esquecidas porque fazem parte da história e formaram a estética da música brasileira. Então, no ambiente do músico, elas nunca serão esquecidas, serão sempre reverenciadas em projetos. Mas, pessoas de outros meios não ligados ao universo da música ou as mais jovens certamente não sabem quem são essas artistas. O que melhora esse cenário são as biografias, as minisséries ou projetos que ajudam a relembrar essas cantoras."

 

Dalva de Oliveira, por Roberta Campos

"Mesmo imprimindo minha personalidade e trazendo as canções pro meu mundo de alguma forma, a ideia é homenagear estas cantoras incríveis, então passo a ser somente uma intérprete, deixando um pouco a compositora e instrumentista de lado. Dalva tem me ensinado muito. Nos arranjos, vou me colocando ali sem me perder de Dalva e junto com músicos incríveis..."

 

Elizeth Cardoso, por Virgínia Rosa

"Eu já tenho uma certa intimidade com o repertório da Elizeth. Já cantei suas músicas em outros projetos, como por exemplo, na Virada Cultural de 2018 de que participei, em um palco em homenagem aos 60 anos da Bossa Nova. Junto ao maestro e pianista Ogair Júnior, interpretei algumas músicas do LP 'Canção do Amor Demais'. Também gravei algumas músicas para um especial da TV Cultura e para o meu disco 'Samba a 2' gravei 'Voltei', de Baden Powell e Paulo César Pinheiro. Mas é claro que é uma enorme responsabilidade homenagear uma cantora tão especial como Elizeth Cardoso. Não vejo como dificuldade, mas sim como um desafio prazeroso. Muito prazeroso!"

 

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