JUVENAL PEREIRA/ESTADÃO
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Dado Villa-Lobos: 'Aquilo foi algo arbitrário, louco e inverossímil'

Guitarrista ex-integrante da Legião Urbana fala da apreensão das fitas master de propriedade da gravadora Universal Music, que foram retiradas dos arquivos de conservação de fonogramas para serem entregues pela polícia ao herdeiro de Renato Russo

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 19h31

Depois da Operação Será apreender possíveis “gravações inéditas” de Renato Russo na casa do produtor Marcelo Fróes há dois meses seguindo uma denúncia do filho e herdeiro do cantor, Giuliano Manfredini, foi a vez da Operação Tempo Perdido ser ativada para apreender mais materiais que, segundo a polícia, deveriam estar em posse de Giuliano. A ação ocorreu nesta quarta-feira, quando agentes da Polícia Civil apreenderam um material fonográfico com gravações feitas pela Legião Urbana em um depósito em Cordovil, na Zona Norte do Rio.

As cerca de 91 fitas master estavam guardadas no depósito da Iron Montain, empresa de arquivamento usada pelas gravadoras para conservas os fonogramas em condições climatizadas. Fora dali, nas temperaturas do Rio de Janeiro, elas correm riscos de serem inutilizadas. O material, segundo a polícia, traz gravações inéditas, como uma versão de Faroeste Caboclo em ritmo de reggae e uma canção inédita chamada Helicóptero.

A investigação iniciada em 2018 parte do princípio de que as fitas são de responsabilidade de Giuliano Manfredini e tem colocado um dos focos da investigação no produtor Marcelo Fróes, de quem a polícia apreendeu há dois meses o celular e o computador para tentar encontrar outras gravações de Renato Russo. O delegado da operação, Maurício Demétrio, disse o seguinte em uma matéria veiculada pelo Jornal Nacional: “A gente não sabe qual o objetivo disso (as fitas guardadas com terceiros). Se algum dia houve um objetivo, esse objetivo se perdeu no tempo. O que a gente sabe é que esse material estava fora do domínio do verdadeiro dono, que é o Giuliano Manfredini.”

Mas Marcelo Fróes contou ao Estado que foi contratado primeiro pela família e depois pela EMI para fazer o trabalho da catalogação do material que havia sido deixado em alguns estúdios do Rio de Janeiro depois da morte de Renato. E afirma que tem cada um desses contratos assinados por ambas as partes. O fato de não ter apresentado esse material para Giuliano Manfredini, segundo diz, foi porque o filho de Russo era menor de idade à época da catalogação.

Alguns detalhes legais podem fazer a investigação, talvez por desconhecimento das leis de direitos autorais, meter os pés pelas mãos. Gravações, ou os chamados fonogramas, pertencem à gravadora do artista, no caso, à Universal Music. O que é de posse dos herdeiros e dos outros integrantes da Legião Urbana são os direitos autorais. Ou seja: o que a polícia levou dos arquivos da Iron Montain não pertenceriam nem ao próprio Renato Russo se ele estivesse vivo. A Universal informa que já está em busca das vias legais para rever suas posses na Justiça.

Uma nota foi divulgada com a posição de Giuliano Manfredini e repassada ao Estadão respondendo ao pedido por uma entrevista. “Giuliano Manfredini, diretor-geral da Legião Urbana Produções e herdeiro único de Renato Russo, informa, por meio de sua assessoria de imprensa, que o material extraviado e encontrado será analisado, tratado, avaliado e catalogado para, posteriormente, determinar ações cabíveis.”

O Estado falou com Dado Villa-Lobos, guitarrista da Legião Urbana. Aqui vão os trechos da entrevista:

Sobre a ação policial:

“Algo arbitrário, louco, inverossímil. O proprietário desse material é a maior empresa de discos do planeta, a Universal Music. Foram 30 anos de contrato da Legião com a EMI, comprada pela Universal. Quando você assina um contrato com uma companhia de discos, você está cedendo os direitos dos fonogramas para a companhia para ela pagar a você um royaltie em cima da venda de cada unidade daquele fonograma. E foi a empresa quem fomentou toda a produção daquilo, contratou um produtor, botou você no estúdio, pagou o estúdio, os engenheiros. É assim que funciona. Você assina um contrato com esses caras. Foi o que aconteceu. Os direitos fonográficos, ou seja, cada fita, cada HD, é tudo deles. É patrimônio deles!"

Sobre parte do que seria material inédito

“A gente lançou uma edição especial do primeiro disco quando comemoramos os 30 anos do lançamento dele, uma ideia que partiu da gravadora. Eu pedi as fitas e vi que havia lá as gravações que começaram em 83 e terminaram em 84. E a gente conseguiu lançar um segundo disco com demos, sobreas de estúdio. A gente aprendendo a tocar Ainda é Cedo, pro exemplo. E ainda mais dois remixes, isso tudo saiu em 2015 pela gravadora EMI. Eu tentei fazer a mesma coisa com os 30 anos do álbum Dois. E ali sim tem algumas músicas inéditas, como O Grande Inverno na Rússia, que nunca lançamos, Juízo Final, no Nelson Cavaquinho, que a gente gravou no Dois mas não coube no vinil, um take de Fábrica com o Renato cantando em inglês, enfim. Coisas assim. A gente ensaiando e testando coisas. Eu tentei lançar isso e o herdeiro (Giuliano) não concordou."

Sinais de um Brasil

 “Isso tudo que está vindo agora é realmente estranho. Um posicionamento falso do jovem (Giuliano). E como pode a polícia e a Justiça entregarem nas mãos desse menino algo para ele colocar em casa quando tudo estava a salvo na (empresa) Iron Montain, que tem contrato com a Universal há mais de 20 anos para preservar as fitas em condições climáticas adequadas? Agora, eu não sei. Acho que perdemos. Isso é o Brasil, cara, o mesmo Brasil que queimou o Museu Histórico Nacional e que vem destruindo a cultura brasileira sem parar. Cara, é muito triste. É isso. E aquilo não é só Renato Russo, aquilo é Legião Urbana. São três caras ali.”     

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