Curso ensina boas maneiras à platéia

No intervalo entre a abertura da ópera As Bodas de Fígaro, do austríaco Mozart, e o Concerto para Piano e Orquestra, do russo Tchaikovsky, um homem levanta-se da silenciosa platéia e grita: "Toca a Nona de Beethoven!" Em um show de rock, tal comportamento seria seguido por um coro estridente, mas em um concerto sinfônico o público acharia legítimo o maestro descer do pódio e investir com a batuta sobre o impertinente autor do pedido. A etiqueta a ser observada pelo público em um concerto é similar às boas maneiras exigidas em um jantar elegante. Para evitar gafes como essa, as professoras Clarice Mello e Liana Justus resolveram oferecer ao público de São Paulo um curso de formação de platéia, no Centro Cultural Banco do Brasil.As duas sabem do que falam: decidiram partir para as lições de comportamento depois de testemunhar mancadas suficientes para encher um livro. Clarice, uma soprano que gravou até com a Sinfônica de Berlim, viu tantas indiscrições em concertos, recitais e óperas, que só de reproduzi-las poderia ganhar a vida como humorista. Durante uma peça dificílima de Schumann, por exemplo, um rapaz sentado ao seu lado na platéia insistia em mastigar salgadinhos. "Com o tempo, ele acabou mastigando no mesmo compasso da música", conta rindo.Gafes sempre existiram, lembra, mas de uns anos para cá elas se multiplicaram, graças ao maior número de concertos e temporadas estáveis nas salas de São Paulo - que vem levando mais gente a se interessar por música clássica. Isso é ótimo mas é como comer escargot pela primeira vez: exige educação para não cometer deslizes. Clarice acha que as produções dos concertos podem contribuir para evitar os contratempos."Nas salas da Europa e Estados Unidos é comum a distribuição de balas antes dos espetáculos, o que ajuda a lubrificar a garganta e evitar os pigarros. Aqui, infelizmente, as bonbonnières vendem até amendoim japonês, super crocante." Mas há exceções. Na Sala São Paulo, por exemplo, o público encontra no hall balas já sem papel. Um lenço pode ser útil para abafar a tosse. Além dos pigarros, celulares deixados ligados, bocejos sonoros, conversas e aplausos fora de hora integram a lista de atitudes que irritam regentes e instrumentistas.No domingo, o pianista Nelson Freire, que se apresentava no Teatro Municipal, não hesitou em tirar as mãos do teclado quando um celular soou no meio da execução do segundo movimento do Concerto Nº 2, de Chopin. Pediu que o aparelho fosse desligado.Maestros e solistas que não se importam com os aplausos fora de hora são uma minoria. John Neschling, diretor artístico e regente titular da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), considerada a melhor do País, pede ao público para desligar celulares e bips e informa em que momentos se deve aplaudir. Nos programas de concerto da OSESP, há três páginas destinadas a esclarecer dúvidas de comportamento.Até o barulho do público dobrando as folhas do programa pode ferir a sensibilidade dos integrantes de uma orquestra. Há dois anos, o barítono alemão Matthias Goerne, um dos maiores da atualidade, se apresentou na Sociedade de Cultura Artística e pediu que o programa, uma coleção de canções de Schubert, fosse editado de forma a não permitir que se passasse as páginas antes do fim de cada canção."Pode parecer exagero ou frescura dos músicos, mas o fato é que a música erudita ou clássica requer um grau altíssimo de concentração, que, se quebrado, pode prejudicar a performance", explica Liana Justus, especialista em história da música. O silêncio entre um movimento e outro em uma sinfonia ou concerto serve para o regente e os músicos prepararem-se para tocar mais rápido ou mais lento (allegro e andante), por exemplo. "São pouquíssimos segundos, mas importantíssimos", ensina Liana.Silêncio - Até a época de Beethoven (1770-1827), era comum as pessoas conversarem, não só nos intervalos da obra, mas durante a execução. O compositor alemão foi quem primeiro tentou impor silêncio à platéia, formada muitas vezes por nobres. Beethoven costumava se levantar do piano - de onde ele também regia - e abandonar a sala de concerto quando não obtinha o respeito do público. Foi apenas com Gustav Mahler (1860-1911) que se conseguiu estabelecer um comportamento silencioso durante as apresentações.Formação de Platéia, com as professoras Clarice Mello e Liana Justus, aos sábados, uma vez por mês, até novembro. No CCBB, r. Álvares Penteado, 112, Centro (tel.: 3113-3651). Gratuito.

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