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Chamada de alienada, Wanderléa iniciou a revolução nos lares

Cantora jamais respondeu aos ataques de alienada feitos pela linha dura da MPB nos anos 1960

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

11 Dezembro 2016 | 05h00

Eles foram acusados de alienados, vazios, entreguistas, burgueses. Um anúncio colocado nos jornais pela própria emissora que os contratara em 1965 ia mais além, promovendo um embate entre eles e um especial feito pelos linhas dura da MPB: “Assista ao programa Frente Ampla da Música Brasileira contra os alienígenas do rock”. Wanderlea, uma garota de 19 anos que poderia dizer ter 15, era atacada nas revistas que publicavam e estimulavam o embate entre a música brasileira e a Jovem Guarda. Ao lado dos parceiros Roberto e Erasmo Carlos, apresentadores do fenomenal Programa Jovem Guarda, na TV Record, Léa simbolizava à patrulha da esquerda tudo o que deveria ser combatido no Brasil naqueles anos de 1960. Artista em período de ditadura que não fosse combativo não deveria nem existir. Elis Regina os chamava de superficiais para baixo e liderava uma passeata contra a guitarra elétrica de braços dados com Gil e Edu Lobo.

A Jovem Guarda na qual Wanderlea esteve absoluta na condição de rainha, sem concorrentes, fazia uma revolução comportamental que o mundo levaria décadas para perceber. Se nas ruas seus adeptos soavam apolíticos, enaltecendo as jovens tardes de domingo em canções de estruturas primárias enquanto os mpbistas criavam versos e harmonias das galáxias, sofrendo com as censuras do regime, a história não era a mesma dentro dos lares. Os pais e as mães da geração que teve filhos de 16 anos à frente da TV assistindo ao Programa Jovem Guarda começaram a ser confrontados com posturas que jamais imaginaram. As saias haviam subido dois dedos acima dos joelhos, e era assim que as meninas queriam sair. Os rapazes não precisavam mais seguir o gosto paterno dos sambas-canções, da bossa nova e das músicas de protesto lançadas nos festivais. O rock lhes dava agora uma nova e irresistível opção: a de serem eles mesmos, de exorcizarem demônios e de poderem escolher um caminho que não significava ouvir música como se pegassem em armas. Wanderlea, que jamais respondeu aos ataques de sua geração, atuou na frente mais ingrata. Menina em um mundo machista e conservador, o muro que começou a derrubar nas brigas com o próprio pai foi tão representativo quanto Roberto mandando tudo para o inferno. 

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