DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

Crítica: Vespas Mandarinas mudam o rumo, deixam o peso e perdem a mão

Grupo substitui pegada mais pesada do ótimo álbum de estreia, Animal Nacional, e parte para uma sonoridade pop que pode lhe custar caro

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

07 Março 2017 | 04h00

É quase uma outra banda este Vespas Mandarinas de Daqui pro Futuro se comparada ao mesmo duo que surgiu em 2013 com o inquieto Animal Nacional. Agora, eles retrocedem na agressividade, domesticam a ira que vibrava suas vozes e distorcia suas guitarras e apostam em um discurso de menos decibéis e decodificação mais rápida. Se movimentam do começo dos anos 80, influenciados pelo punk nacional de Um Homem Sem Qualidades, para alguns adiante na mesma década, de onde sacam artimanhas para Daqui Pra Frente, com Samuel Rosa, e a dance E Não Sobrou Ninguém, sobre poema de Vladimir Mayakóvsky, com guitarra de Edgard Scandurra. 

É uma decisão que não precisa ser considerada necessariamente pecaminosa, desde que haja verdade. Um disco não é reflexo de um artista por inteiro, mas tende a refletir apenas uma de suas partes. Muitas vezes é preciso ouvir mais do que três discos para se conhecer a imagem mais próxima da realidade de uma banda. O movimento que o Vespas faz pode ser visto como destreza ou covardia, depende do ponto de vista.

A curva dos gráficos no rock and roll mostra que, em geral, quanto mais peso, menos abrangente sua música será. Assim, o duo de Thadeu Meneghini e Chuck Hipolitho comete a coragem de redirecionar um projeto que vinha ganhando o jogo no quesito credibilidade (o mesmo gráfico mostra que peso pode aumentar a respeitabilidade de uma banda na mesma proporção) e, ao mesmo tempo, deixa nas entrelinhas e mesmo fora delas a vontade de conversar com mais pessoas. Aí está a questão. Não seria pecado se tivesse mais verdade. Quando partem para canções pop como Carranca (“descubra o que você ama / e deixa que isso te mate / tudo vai te matar / essa é a verdade) ou Cada um Sabe de Si (“encaro a sorte de frente / carrego a tempestade com os dentes...”) não as fazem porque lhe saem naturalmente, mas porque partem de uma pré disposição em serem mais palatáveis sob um novo código. A higienização no rock também representa riscos e o Vespas Mandarinas caminha nessa corda: pode perder parte dos fãs que sustenta suas bases e não conseguir chegar aos novos ouvidos. Ou pode chegar aos novos ouvidos e ficar preso a eles e a uma sonoridade de teto baixo. Sua música não está simplesmente mais leve ou mais pop, mas mais pobre e menos criativa. Vale a pena pagar o preço? 

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