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Crítica: The Strokes mostra saudades dos velhos tempos em 'The New Abnormal'

A ironia é que a banda faz isso desde o início da carreira; sexto disco do grupo nova-iorquino sai nesta sexta-feira, 10

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

09 de abril de 2020 | 20h49

Os Strokes surgiram no início dos anos 2000, e olhando em retrospecto é pouco provável que a própria banda considerasse que se tornaria a mais recente (até hoje) pedra fundamental do rock anglo-saxão, que a cada década desde 40 anos antes se reinventaria vigorosamente com um novo tipo de música, sempre, porém, focada em guitarras. Ao mesmo tempo, a postura blasé, o estilo fashion e, o mais importante, a potência indiscutível do primeiro disco, Is This It, deixam claro por que o Strokes se tornou o que se tornou.

Embora faça parte de um grupo grande de bandas, recentemente mapeado no livro Meet In Me In The Bathroom, uma história oral dos artistas envolvidos naquela cena do rock revival nova-iorquino do início dos 2000, não é por acaso que o livro foi nomeado em homenagem a uma música, sim, do Strokes. Alvo preferido dos críticos, dos fãs de heavy metal e de muitos outras pessoas que pensam em música pelo menos uma vez por dia, a banda tem uma trajetória, mesmo que acidentada em termos musicais e de relacionamentos intra-grupo, nada menos que interessante. 

Is This It (2001) reuniu o rumor que o Strokes causava no seu cenário local e os catapultou para o espaço global. Room on Fire (2003) deu mais consistência às primeiras explorações roqueiras insólitas e sem modéstia do grupo. First Impressions of Earth, dois anos depois, marcou o redirecionamento dos Strokes para sua fase new wave dos 80, em contraste ao som garageiro de atitude punk dos 70. Angles, de 2011, é um disco subcompreendido. Comedown Machine (2013) foi lançado numa época que, aparentemente, ninguém mais queria um disco de rock, e sim um Yeezus — o excelente disco de Kanye West, com um tapa de última de hora do controverso Rick Rubin. 

A experiência de Rubin nos últimos anos, seja com artistas de rock ou de outros gêneros, é, no mínimo, esquecível. Portanto, é possível que fãs de música em geral recebem o novo disco do Strokes, The New Abnormal, com resistência, desânimo ou até pior, sabendo que é Rubin quem assina a produção. The New Abnormal será lançado nesta sexta-feira, 10.

Mas a recomendação é ir com calma e largar as pedras: o álbum se encaixa na discografia da banda de maneira coerente, para o bem e para o mal.

A primeira canção The Adults Are Talking traz no refrão uma progressão de acordes que já foi usada pela banda no passado e que será reconhecível para os fãs. Não por acaso, essa olhada para o próprio passado também aparece no começo de Why Are Sundays So Depressing?, embora no meio da canção a banda opte por outro caminho, reflexivo, uma reflexão mais ou menos adolescente completamente apoiada na guitarra, o instrumento que fez os Strokes. A música acaba mal, honrando outro traço do passado da banda, célebre por não saber como encerrar suas próprias canções.

Not the Same Anymore, estranhamente, guarda ecos do som de Is This It, a primeiríssima canção do primeiro álbum do Strokes: se lá atrás Casablancas debochava do fato de ser um entrão inconveniente no apartamento de alguém, quase 20 anos depois ele reconhece que não pode mudar, embora o encorpamento que a banda dê à canção aqui seja mais largo do que no passado — e talvez fosse a pressa de antigamente que tornasse o Strokes tão potente.

Selfless tem Albert Hammond Jr. arpegiando sua guitarra sobre uma balada lamuriosa de letras quase sem sentido de Casablancas, mas que indicam, tangencialmente, a busca um amor, também, quase perdido. Em Brooklyn Bridge to Chorus os sintetizadores ecoam reminiscências da música dos anos 1980 que certamente fez parte da da criação musical dos músicos, agora quarentões, ao mesmo tempo em que o vocalista reflete sobre velhos hábitos (a bebida, com que ele parou há mais de 15 anos). Ao mesmo tempo, é possível enxergar um eco que os próprios Strokes abriram para os indies dos anos 2010 ("The deeper I get, the less that I know", diz Casablancas; “the less I know, the better”, disse Kevin Parker, do Tame Impala, em 2016). Em Eternal Summer, a primeira frase é: “I never let it happen”, outro eco de Tame Impala; também é possível associar o falseto de Julian ao de Parker (e de ambos ao de Lou Reed), numa troca sobrenatural de influências que, arrisco, enriquece o trabalho de todos.

A vibe oitentista aparece em Bad Decisions, o primeiro single do disco, que interpola a melodia de Dancing with Myself, de Billy Idol, numa prática comum ao hip hop, incorporada aqui e outros momentos de The New Abnormal ao espírito da banda. Em At The Door, o quinteto abre ainda mais espaço para o synth-pop que vinha sendo insinuado em todas as faixas anteriores, como se o Depeche Mode tivesse nascido 20 anos depois em algum lugar do Brooklyn e tivesse colaborado com o Daft Punk.

A música que encerra o disco, Ode to the Mets, é a mais estranha e inclassificável do álbum. Com um início sustentado apenas por guitarras, baixo e base eletrônica, a música evolui para outra balada, e o pedido de Casablancas no meio do primeiro verso (“drums please, Fab”, Fab sendo Fabrizio Moretti, o baterista brasileiro da banda) virou meme entre os fãs. 

Mas numa espécie de ciclo que retorna ao seu início sem necessariamente se fechar, até pelo contrário, oferecendo pontas soltas e saídas em diversos momentos, os Strokes podem dizer com The New Abnormal que são uma banda de rock com saudades dos velhos tempos, exatamente da mesma maneira que eles faziam no início da carreira.

Veja os clipes já lançados de 'The New Abnormal':

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