Juliana Torres / Divulgação
Juliana Torres / Divulgação

Crítica: Skylab, mais profundo do que o humor

No disco e DVD 'Trilogia dos Carnavais', compositor Rogério Skylab repassa seus três últimos discos e reforça a existência de um mundo onde não há amor, não há humor e nem há protesto. Ou há tudo isso de outra forma

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2016 | 19h31

A plateia de Rogério Skylab não sorri. São dez ou quinze pessoas sentadas em uma réplica de barzinho armado em uma das salas do estúdio 24P, em Santa Teresa, Rio de Janeiro, assistindo à figura mirar em seus olhos com alguma ameaça e desconforto. Skylab não pode estar na prateleira do humor só porque fala o que ninguém falaria equilibrando-se entre a escatologia e o niilismo. Fazer isso seria reduzi-lo ao vazio da graça, um território livre para tocar nas fraturas expostas com um efeito que dura tanto quanto o tempo de um sorriso. Skylab, sério, vai além. Ele acredita no que diz não como discurso de sátira, mas como produto de sua própria realidade.

O show que lança agora em CD e DVD, com realização do Canal Brasil, reúne canções de seus três últimos discos. São eles 'Abismo e Carnaval', de 2012; 'Melancolia e Carnaval', de 2013; e 'Desterro e Carnaval', de 2015. Assim que saiu este último, ele anunciou que sua produção chegava ao fim. O disco com 14 músicas retiradas dos três álbuns tem o nome de 'Trilogia dos Carnavais – 25 Anos de Carreira ou de Lápide'. Um bom sobrevoo na mais recente criação de uma das cabeças mais desafiadoras da música brasileira. Ou da “quase música” brasileira. Há participações de dois nomes que, em algum momento, cruzam idiomas com Skylab. Arrigo Barnabé canta 'Lívia' com a entonação teatral que desenvolveu nos tempos de vanguarda paulistana e Fausto Fawcett aparece em 'A Árvore'.

Entender o que Skylab quer é um grande desafio. Ele se recusa a fazer sentido dentro de algum padrão estabelecido e deixa dúvidas no ar. Não é amor, não é humor e não é protesto. Ou seria tudo isso a seu jeito? Uma pista de sua forma de pensar está em 'Um Acorde Imperfeito', lançada primeiro em 'Abismo e Carnaval': “Um acorde imperfeito / A mil notas bem tocadas / Porque música não é ginástica / Ela tem vazios / Ela tem buracos / É a marca da costura / Numa pele que já foi rasgada / Arte do inacabado / Com ranhuras e acasos”.

Os vazios e buracos estão lá, em meio a uma dicção absolutamente bem pronunciada e um tempo às vezes vacilante. Sua timbre é belo mas sua entonação é terrível. Sua poesia é instigante e maldita. A música que Arrigo canta, 'Lívia', é narrada por um insano assassino que matou a amada (ou a mataram enquanto ele a fazia de refém) e que agora chora no cárcere. Há alguns erros nas letras do encarte, o que às vezes trava o entendimento. Em 'Baleia de Aquário', ele faz sua declamação à amada ser algo quase comovente se não fosse destruidor: “Você é minha jabulani / o meu bujãozinho / As Casas da Banha / Você, meu elefantinho / Meu ursinho panda / Você é minha anta...”

Ele lembra ainda de Branco do Brasil, a singela homenagem que fez no álbum 'Desterro e Carnaval' ao Banco do Brasil, instituição da qual foi funcionário por 27 anos. “Tava preso na senzala / que cresceu e se expandiu / Transformou-se em minoria, era o branco do Brasil / Condenado à fogueira, os pneus eram brasis / Foi queimado em praça pública / e chamado preto Brás / O branco do Brasil é agora preto Brás”.

Sua versão do Hino Nacional dos Estados Unidos sugere a criação de uma anti nação em um quase manifesto se o autor não fosse Rogério Skylab: "Quando amanhecer / E o sol me despertar / Vou continuar dormindo / E não vou trabalhar / Às três horas da tarde / Eu vou me levantar / Vou puxar um fuminho / E depois contemplar".  

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