Crítica: Quinteto de Fagotes da Osesp cobre arco que vai de Bach a Charlie Parker

A formação de quatro fagotes e contrafagote encontrou nos músicos da Osesp intérpretes ideais para mostrarem todos os recursos desse instrumento tão exótico e ao mesmo tempo tão bem-humorado

João Marcos Coelho  , ESPECIAL PARA O ESTADO

22 Outubro 2017 | 04h00

Saí do concerto de segunda-feira, dia 16, no auditório do Masp com um sentimento contraditório. Foi, de fato, uma noite de música de qualidade, combinada com uma exposição de Sérgio Molina sobre a relação entre a Composição com Fundo Amarelo e Vermelho, de Alexander Calder, e o repertório proposto pelo quinteto de Fagotes da Osesp, um enorme arco histórico indo de Bach a Charlie Parker, passando por Piazzolla, Bernstein e as sete deliciosas “gravuras sonoras” de Roberto Sion intituladas Quadros da Pinacoteca.

Como as três figuras em preto – e também o alvo peixinho – parecem dançar sobre o fundo amarelo e vermelho na tela de Calder, tudo parecia bem “costurado”. Ou melhor, quase tudo. Fiquei esperando – e creio que também o bom público presente – a projeção, que não aconteceu, das sete gravuras com as quais Sion interagiu para criar as peças. Teria sido maravilhoso contemplá-las enquanto ouvíamos a música. Por exemplo, Carnaval em Madureira, de Tarsila do Amaral, teria iluminado o maxixe que brinca com a ambiguidade tonal/atonal proposta por Sion. 

Em todo caso, a formação de quatro fagotes e contrafagote encontrou nos músicos da Osesp intérpretes ideais para mostrarem todos os recursos desse instrumento tão exótico e ao mesmo tempo tão bem-humorado. Os melhores momentos ficaram, sem dúvida, com o ótimo arranjo de Romeu Rabelo para a abertura do musical Wonderful Town de Leonard Bernstein (com direito a show numa das criações mais originais do maestro compositor, Wrong Note Rag). Uma gema de 5 minutos, tão fulgurante quanto o arranjo de Alexandre Silvério para o clássico do bebop Donna Lee, de Charlie Bird Parker. 

Quem se encantou com as duas performances finais do grupo deve ouvir imediatamente o CD Entre Mundos (2015), puro jazz com muito improviso e composições instigantes com o Alexandre Silvério Quinteto.

Apesar de tudo isso, saí daquele auditório de tantas noitadas memoráveis de música contemporânea em décadas passadas com a sensação de que se perdeu uma chance raríssima de mostrar efetivamente a relação entre Calder e a música. Afinal, o criador dos móbiles que tanto influenciaram a arte atual, incluindo o nosso genial Hélio Oiticica com seus parangolés, foi parceiro do compositor norte-americano Earle Brown (1926-2002) em ao menos um projeto fundamental no itinerário contemporâneo das relações entre o visual e o sonoro.

Aconteceu em 1963. Calder criou uma escultura móbile em tamanho grande intitulada Chef d’orchestre” ou maestro; Brown, o parceiro menos conhecido de três nomes mais famosos (John Cage, Morton Feldman e Christian Wolff), criou Calder Piece, obra aberta em que quatro percussionistas são “regidos” pelo móbile. Composta há 54 anos, permanece inédita no Brasil.

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