NILTON FUKUDA/ESTADÃO
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Crítica: Prettos oxigenam as tradições do samba com coragem

Irmãos Maurilio de Oliveira e Magnu Sousá lançam o disco 'Essência da Origem' usando os fundamentos da herança e linguagens de outros terrenos

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

28 Fevereiro 2017 | 04h00

Um ato de coragem no samba é abrir a porta que ninguém quer abrir. Ela fica depois do fundo do quintal e dá acesso a um mundo que nem todo sambista desejaria conhecer. Mexer com o samba não é fácil. A força centenária, eleita a demarcação territorial de um País com 206 milhões de habitantes, tem padrões estabelecidos na oralidade desde as proximidades dos anos 1910. Mais do que música, como seria no rock and roll ou no eletrônico, o samba carrega uma carga milenar fazendo a crônica de um povo que não tem seus heróis nos livros de história e que parte da palma de uma mão. Sair de seus padrões é considerado, quase sempre, um ato de traição.

Os irmãos Maurílio de Oliveira e Magnu Sousá fazem um movimento interessante no primeiro álbum que lançam sob o nome de Prettos, Essência da Origem. Até 2014, eles foram integrantes do Quinteto em Branco e Preto, um grupo que teve como madrinha Beth Carvalho, que se apresentou no Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, e que acompanhou grifes como Guilherme de Brito, Wilson Moreira, Luiz Carlos da Vila, Nei Lopes, Almir Guineto, Walter Alfaiate, Dona Ivone Lara, João Nogueira, Elton Medeiros, Maria Rita, Paulo Miklos, Zélia Duncan e Fabiana Cozza. A bandeira ali era a resistência cultural, a pesquisa, a identificação do que não poderia morrer. Nas entrelinhas, vinha uma negação ao samba pop, comercial, universitário, fácil ou qualquer subtítulo que o tornasse menos autêntico, menos genuíno. Uma luta e um peso a quem quisesse jogar em outro campo.

O Quinteto acabou, segundo Magnu Sousá, por desgastes. Não houve briga, ele diz, mas uma corrosão natural do tempo que levou integrantes a partir para outros destinos. Um dos maiores grupos que São Paulo teve a partir dos anos 1990 terminava de forma lamentosa. Apesar de serem especialistas conceituados no que faziam, o caminho se abria com dificuldade cada vez maior, com quase nenhum interesse midiático e pouco potencial para o showbizz. “Acredito que faltou a mídia olhar com mais carinho para o Quinteto”, diz Magnu. “Fizemos um trabalho importante, mas não fomos reconhecidos.” A culpa pode não ter sido apenas da mídia. Carecia ao quinteto um rosto, talvez uma frente de liderança representada por um ou dois integrantes. Mas é aí que as delicadezas começam. Marketing pessoal ainda é um tabu no meio das heranças culturais.

O que os irmãos fazem agora é uma mudança de posição, derrubando alguns pudores para desfilarem por uma avenida mais larga. Nem sempre chegam ao equilíbrio que perseguem, e sabem que sofrerão represálias pelas ousadias de abrirem as tais portas proibidas, mas decretam uma liberdade que faz bem até nos equívocos. Essência da Origem mostra a força de dois compositores com quilômetros rodados, justificando seus 40 e poucos anos de vida. Das 12 músicas, eles só não assinam Tenho Fé, de Marcelo Mattos e Peu Cavalcanti. O nome é uma via de duas mãos. A ‘origem’ é anterior à formação do Quinteto, quando viviam como nômades em mudanças por bairros de São Paulo, tomando samba desde o café da manhã pelas mãos do pai músico Geraldo Xique Xique e da mãe a cantora Tônia Xique. Mas a mesma origem não significa tradição. Eles a usam agora para tentar um novo caminho.

Há uma surpresa logo no começo do álbum, na introdução-vinheta de Alegria e Boa Fé. O que primeiro se ouve é uma divisão de maracatu, depois um cavaquinho, depois um teclado cheio de efeitos, até que as rodas de samba voltem a se impor, apesar de um teclado banhado nas águas dos anos 80 sobrevoar a dupla o tempo todo. A aposta dá um recado a quem os conhece do Quinteto. O discurso, agora, é outro. Deixa Cair não tem sustos, mesmo batendo logo de cara no termo que a polícia moral persegue nos dias de hoje: “A nega é tão linda e diz que me ama; A nega é bonita é diz que me quer bem”. É samba na palma da mão, de roda, com uma bela harmonia original, fugindo das armadilhas partideiras. A romântica Sem Marcas de Dor faz também seu caminho sem plágios hereditários. Fala de uma despedida definitiva, talvez a mais triste de todas, de quando um adeus não tem mais amor.

Cai Fora tem piano elétrico cheio de clima jazzy e acordes com sétimas e nonas demais para a tradição suportar. É samba chique com outro sotaque, com outra cor, cheio de categoria. E volta a roda de pagode com a delícia de Samba Pra Geral, feito pela dupla mais Billy SP, daqueles “de quadra, de roda e terreiro” que abraçam uma comunidade inteira na primeira estrofe. É o assopra na tradição, que vem depois do bate. “Ainda não chegamos a usar tudo o que queremos, mas usaremos”, diz Maurilio, referindo-se ao formato do disco. Soul to Soul, feita com outro parceiro, Paqüera, é soul com gafieira, listando nomes e gêneros pretos, uma exalta-afirmação típica das origens redimensionada pelos novos tempos. “Jesus é preto, Gandhi é preto, Luther King é preto, fé, coragem e dor...”

Chega então a melhor melodia do disco, com uma mistura inesperada. Essência da Origem é samba sobre um clima rítmico de baião sertanejo. Um avanço ainda maior na linguagem que usavam até então, em direção a algum canto que o samba já não alcança, cantado na rara formação de dupla. É o que vai dar a eles olhares desconfiados de quem conhece o samba e ouvidos curiosos de quem nunca os ouviu antes. O tal do ato de coragem. “Sei que muita gente vai criticar o que estamos fazendo, mas o que queremos é ser ouvidos não só por quem gosta de samba”, diz Magnu. Cundum, o som do coração, é um samba a la Martinho da Vila até a chegada do convidado especial, Emicida. Em vez de improvisar versos de rap, ele cita o texto de Coração (Samba Anatômico), feito por Noel Rosa em 1931.

A vida que trazem na bagagem pode ter influência na visão de longo alcance dos irmãos. As mudanças constantes do pai, homem da noite, seguido pela mulher apaixonada, levaram a família a morar em praticamente todas as regiões de São Paulo. Magnu conta ter estudado em onze escolas diferentes, nos períodos de ensino fundamental e médio. “Contei que já tive algo como 300 professores diferentes.” A riqueza acumulada de quem anda pelo mundo assim não tem tamanho. “Imagine quantos tipos de pessoas vamos conhecendo. Costumamos dizer que somos peritos na arte de sofrer.”

O primeiro grupo informal veio em 1990, quando se juntaram com amigos no quintal. Seis anos depois, conheceram os rapazes do Quinteto no bar Boca da Noite. A afinidade foi instantânea, Beth os viu e uma trilha de vitórias quase invisíveis começou. A porta que abrem agora traz um oxigênio do qual a tradição também precisa para continuar respirando.

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