Silvana Garzaro/ ESTADÃO
Silvana Garzaro/ ESTADÃO

Crítica: O refinado Jan Lisiecki em recital inesquecível

Aos 22 anos, o pianista canadense relembrou a era dourada dos grandes intérpretes românticos, na Sala São Paulo

João Marcos Coelho ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

16 Março 2018 | 06h00

Em seus 22 anos, o pianista canadense nascido em família polonesa Jan Lisiecki relembrou, em seu excepcional recital na terça-feira, 13, a era dourada dos grandes intérpretes românticos. O mesmo arroubo, a aura de um gigante em frente às 88 tecladas intimidantes do reluzente Steinway de concerto da Sala São Paulo.

E, sobretudo, dá vontade de dizer, como Schumann falou de Liszt: “É necessário vê-lo, e não só ouvi-lo”. Pois é ali, na arena do concerto, que os grandes pianistas travam batalhas em seu dia a dia enfrentando o duríssimo teste de seduzir frequentadores das salas de concerto formados e enfastiados por gravações artificialmente perfeitas. E quando o repertório é feito de peças tão conhecidas, o público fica excitado em confrontar a performance com suas interpretações preferenciais.

Se o recital de piano é “uma arena sangrenta”, como dizia Glenn Gould, o refinadíssimo gladiador Lisiecki já ganhou literalmente a plateia com suas leituras pessoais dos dois noturnos opus 55. Mostrou uma interpretação madura de Chopin, longe dos fogos de artifício e mais preocupada com a música mesmo. Chopin canta com o bel canto, disse ele em entrevista ao Estado. E como Lisiecki o fez cantar nos três noturnos, ao mesmo tempo que subiu o tom no vertiginoso scherzo n.º 1.

O uso parcimonioso dos pedais ressaltou a escrita cristalina, mas muito intrincada das incríveis quatro peças noturnas, op. 23, de Robert Schumann, um de seus ciclos mais desafiadores, construído sobre uma série de presságios sombrios que em seguida se confirmariam com a morte de um irmão. Um dos pontos altos de um belo recital.

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A palavra “belo” me saiu quase naturalmente. Pois a beleza esteve sempre presente em nossos ouvidos, mesmo na dificílima Gaspard de la Nuit, em que Ravel usa tudo o que sabe de piano (e como ele sabe) e adiciona dificuldades técnicas quase intransponíveis: o constante cruzamento das mãos em Ondine; a peça fúnebre que é Le Gibet, na qual a dinâmica jamais vai além do “p”; e Scarbo, o demoníaco scherzo com suas frenéticas notas repetidas, diabólicos saltos e ásperas dissonâncias.

É uma beleza que os grandes pianistas românticos esbanjaram em seus recitais no século 19 e na primeira metade do século 20. E que ficou patente nas cinco peças de fantasia op. 3 de Rachmaninov (ele mesmo um dos grandes heróis do pianismo romântico que levou essa bandeira até as quatro primeiras décadas do século 20).

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Parece que estamos vendo o surgimento de uma novíssima geração de chopinianos de primeiríssima qualidade. Felizmente, temos na linha de frente Cristian Budu, com suas incensadas gravações dos 24 prelúdios opus 28.

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