Paulo Rapoport
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Crítica: O bem que o sertão faz a Mônica Salmaso

Com shows de hoje (11) a domingo, no Sesc Vila Mariana, cantora mostra o belo repertório do álbum 'Caipira'

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

11 Agosto 2017 | 07h00

Aquele homem parecia tão intenso que Mônica Salmaso precisava chegar com cuidado. Era um rio inteiro que passava ali. Exuberante, místico, gracioso e triste, velho e criança, raso e imenso. Um outro brasileiro, da extremidade oposta ao sambista exaltação de si mesmo ou ao urbano, sem prosa ou poesia. Salmaso respirou fundo, entrou em sua casa e voltou com sua alma na voz.

A visita ao cancioneiro sertanejo que ela faz em Caipira, álbum que mostra com shows a partir de hoje, no Sesc Vila Mariana, é um bom caminho de duas mãos. Uma das expressões musicais de maior poder de comunicação empresta a Mônica a possibilidade da abrangência irrestrita, algo de que seu histórico às vezes carece à revelia de suas intenções. Ao mesmo tempo, a inescapável tristeza de sua voz, um clarinete que chora sem lágrimas, torna profundo um discurso muitas vezes de relevância represada pelo preconceito. Mônica faz bem à música que canta e vice-versa.

Os músicos que a conhecem muito bem sabem onde chegar, tratando sua voz com a delicadeza de quem segura um vaso de louça chinesa. Teco Cardoso toca uma flauta baixo que faz a diferença em Caipira, de Breno Luiz e Paulo Cesar Pinheiro. A viola e o baixo acústico são de Neymar Dias e o piano de André Mehmari. A canção Bom Dia, de Nana Caymmi e Gilberto Gil, é trazida para esse universo pela viola de Neymar, e tem um lirismo reforçado pelo clarinete de Proveta e o acordeom de Toninho Ferragutti. 

Mônica explica seu processo de escolha de músicas. “O problema é definir o que não vai entrar.” Depois de trabalhar em outro projeto, como produtora, com o violeiro e compositor Paulo Freire, ela fez sua encomenda. “Pedi músicas e ele me mandou mais de 200, entre folclóricas e tradicionais. Meu desafio era chegar a um ponto que não seria o do disco regional, assim como eu jamais poderia fazer um disco de samba de raiz.”

Antes de fechar o álbum, o compositor Roque Ferreira ligou e fez uma das mais belas colaborações, com Baile Perfumado. “Ele cantou por telefone e me capturou.” Alguns versos que a pegaram: “A dobra daquela estrada / de sofrimento enfeitada / é sombra de Sacerê / É por ali que eu chego / Onde perdi meu sossego / E a dor aprende a doer”. A percussão é de Robertinho Silva. Água da Minha Sede, também de Roque, que Zeca Pagodinho tornou um hit, define o potencial de se fazer uma leitura. Ela é aqui outra canção, e tão bela quanto. 


Mônica precisa furar a bolha que a prende na esfera da perfeição

Mônica Salmaso precisava se banhar neste rio. Seus discos, desde Afro-Sambas, com o violonista Paulo Bellinati (1995), são todos bem cuidados, bem acabados, com músicos excelentes, escolhas criteriosas e, por vezes, de alcance restrito. Não o alcance de mídia, discussão que seria chuva no molhado aqui, mas o das almas.

Há um certo envernizamento vocal que, quando se coloca pelo estudo que esta cantora tem sobre tudo o que faz, o irônico preço a se pagar parece ser o de esfriá-lo. É bom ouvi-la também assim, entregue sem grandes preocupações, amparada por arranjos delicados, como frequentemente aparecem em seus discos, mas sendo guiada apenas por uma música que vive em seu sertanejo.

Mônica precisa estourar a bolha que a segura em uma certa esfera. Ela, a esfera, já é extensa e qualificada, lhe garante uma base de fãs criteriosos que sustentam sua carreira com tranquilidade e colocam em sua agenda shows suficientes para garantir seu sustento e mostrar sua arte. Mas ainda é pouco. Sua qualidade e seu tempo de estrada a legitimam para que chegue a um público maior e se torne uma personalidade de espaço e reconhecimento lado a lado com as vozes festejadas de seu tempo.

Não é o caso de mudar rumos, escolher repertórios pop, vender a alma às negociatas de mídia convencional ou se aliar aos web papas dos novos tempos. Por manter-se inabalável em seu caminho, Mônica tem um raro caráter artístico. Só canta uma canção depois de fazê-la passar por sua voz sentindo que poderia lhe dar uma nova vida. Ainda assim, falta algo, e algo que pode estar na alma de si mesma.

Aos que não seguem sua carreira com mais proximidade fica difícil se lembrar de uma música pela qual ela seja imediatamente reconhecida. Falta termos algo de Mônica Salmaso em nossas memórias afetivas, um caminho que pode se tornar mais longo com interpretações de excelência, excessivamente bem tratadas, e de canções já existentes. Caipira, assim, a torna mais próxima, mais humana e presente mesmo depois que o disco chega ao fim. Mônica Salmaso merece chegar mais longe. (Julio Maria)

 

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