Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Crítica: 'Missa Solemnis' da Osesp mostra genial convivência de estilos

A monumental obra abriu a temporada 2020 da Osesp e marcou a estreia oficial de seu novo maestro titular, Thierry Fischer

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

07 de março de 2020 | 14h18

Vocês podem não acreditar, mas Beethoven compôs a Missa Solemnis possivelmente desafiado por um crítico musical. A monumental obra abriu na quinta-feira, 5, a temporada 2020 da Osesp e marcou a estreia oficial de seu novo maestro titular, Thierry Fischer. A façanha foi do escritor e também compositor E. T. A. Hoffmann, no artigo Música Sacra Antiga e Moderna (1814). 

Depois de lamentar a frivolidade e falta de transcendência das missas suas contemporâneas, diz esperar que um compositor possa dominar a escrita litúrgica para devolver sentido à música sacra: “A música mais pura, santa e sagrada é a que nasce do coração, que é expressão do amor”. 

Em 1813, chamara de “ingênua” a Missa opus 86 de Beethoven, que no entanto o manteve em alta conta por sua crítica da Quinta Sinfonia, de 1810. E anotou, no manuscrito do Kyrie, que abre a Missa: “Vindo do coração, que possa também atingir o coração”. 

A frase célebre deu o mote para a visão romântica da música. E foi o que se viu e ouviu em quase uma hora e meia de música extraordinária, que assume a espiritualidade religiosa, mas não a postura de fiel que deseja perdão e bênção de Deus. Beethoven rejeita a condição de humilde servo do culto católico, investe-se como criador cuja missão é fazer os homens experimentarem a transcendência: “Meu objetivo é provocar e instilar sentimentos religiosos permanentes nos cantores e músicos e também nos ouvintes”.

A obra é uma genial convivência de estilos e gêneros. Ora parece um coral haendeliano (no Gloria), ora tem tudo de um adagio de um concerto para violino, como no prelúdio que antecede e no próprio Benedictus, em que brilhou o talento do spalla Emmanuele Baldini, coadjuvado pela flauta, além das cordas em pizzicati – um dos momentos mais intensos de um concerto excelente. Aqui o maestro tem de balancear os timbres para que tudo chegue aos ouvidos sem deixar que o violino seja encoberto. Fischer conduziu com segurança e sem deslize. Muito bons também os solistas vocais, dois brasileiros e dois alemães, jamais encobertos, mais um ponto para Fischer. 

O arquiduque Rodolfo, aluno e mecenas do compositor, franqueou-lhe sua biblioteca de partituras. Ele copiou trechos da Missa de Bach e do Réquiem de Mozart. Ultrapassou-os todos em amplitude e propósito. Sua Missa é na verdade um oratório religioso mais adequado para a sala de concertos do que uma igreja, porque funciona como sinfonia com coros, solistas e grande orquestra. Daí os bruscos contrastes e rupturas típicos do discurso instrumental. 

Hoffmann morreu em 1822, aos 46 anos. Não teve tempo de ler e analisar a partitura nem de assistir à estreia da Missa em São Petersburgo, no dia 7 de abril de 1824. 

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