Igor Gripp
Igor Gripp

Crítica: jazz de Diogo Monzo media tradição e futuro sem criar 'nordestes imaginários'

Álbum 'Sebastiana', lançado pela gravadora Biscoito Fino, mostra pianista convicto de sua musicalidade mesmo ao lidar com matrizes brasileiras sedimentadas

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2021 | 15h44

O jazz de Diogo Monzo é um desses territórios nos quais se ouve com muita clareza e contradição as mediações entre o peso histórico, aquilo que se codifica, e o que se supõe ser um olhar para o futuro, algo que não se nomeia e que, no jazz, costuma se chamar improviso. O ontem e o amanhã em um mesmo tema. Seu álbum Sebastiana, pessoalmente histórico já no afeto do nome dado em homenagem à avó, que partiu às vésperas da gravação do disco, busca legitimar a criação livre e às vezes distante da tradição sobre matrizes do baião, do frevo, do maracatu e do samba nem sempre tão perceptíveis quanto as que aparecem em seu disco de 2015, Meu Samba Parece com o Quê?.

Agora, Monzo parece menos centrado no tempo físico que soava mais palpável no álbum de 2015, sobretudo em temas como no choro Segredo, no maxixe Escorregando, na regravação de Samba de Uma Nota Só e no tema título Meu Samba Parece com o Quê?. Ele regrava no álbum novo, ao lado do baterista Di Stéffano e do baixista Bruno Rejan, temas de sua autoria lançados lá atrás, como Segredos, que faz em andamento ligeiramente menos acelerado, e o próprio Meu Samba Parece Com Quê?, sem mostrar exatamente uma novidade nos arranjos além de tudo o que acontece no instantâneo e irreprodutível improviso. Não deixa de ser um ato raro no universo instrumental esse de um músico jovem retomar temas próprios em discos seguintes, e fica curioso vê-los criando seu próprio peso histórico, valorizando seu próprio passado.

Sebastiana, lançado pela gravadora Biscoito Fino, é um retrato de muitos planos da musicalidade de Monzo, apesar da pouca variação no formato de sua base instrumental. Ele não cai nas reproduções de padrões regionais tentadas pela força da tradição que ampara seus temas, e esse parece ser um pacto bem sucedido fechado pelo autor com a cota de tradição estabelecida para sua música. Ela, a tradição, nunca surge com arbitrarismo e não mata a ideia da composição. São fragmentos rítmicos, e às vezes mais do que isso, mas nunca o suficiente para tornar o disco um álbum-exaltação a um nordestino imaginário que Monzo não é, mas que muitos instrumentistas tentam se tornar ao se colocarem a serviço de uma mera reprodução.

O fato de ser do município de Barra do Piraí, no Rio, e de ter começado sua história na música bem cedo, nos bancos da Igreja Batista de sua cidade, pode estar em camadas mais profundas de algumas faixas e em sua relação com o sagrado, não necessariamente religioso, que se ouve em instantes de devoção. Eles estão em sua Song For Sebastiana; em Pas de Deux, feita com Fernanda Quinderé; e talvez até em Chorinho para Fernanda Póstress, deixado pelo pianista Luizinho Eça. Impromptu#1, uma parceria na composição e na execução com a violonista Roberta Mourim, propõe uma quebra de limites e uma liberdade de sensações. Cada um vai para onde deseja. Impromptus são experiências, como o nome diz em sua etmologia, improvisadoras. Schubert e Chopin publicaram suas séries de impromptus e Monzo e Roberta arriscaram-se no salto no escuro que pode ser experimentado por quem ouve com a mesma falta de expectativas com relação ao próximos compassos de quem toca. Há momentos mais terrenos, como Mugunzá, Idas e Vindas, Pequi e Mangaba, mas Diogo Monzo, ainda que não proponha rupturas drásticas, é um autor mais dos ares do que do chão, mais do porvir do que aquilo que está estabelecido.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.