JF DIORIO /ESTADÃO
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Crítica: Gil e Caetano, dois lados de um mesmo homem

Caetano, o ser político, e Gil, o humanista, fazem as plateias gritar por justiça e chorar pela vida

Julio Maria , O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2016 | 20h29

O que Gilberto Gil e Caetano Veloso representaram no palco do Citibank Hall no último final de semana, sexta e sábado, foi mais do que um ato musical. Em momentos absolutamente distintos de agosto do ano passado, quando trouxeram à cidade pela primeira vez a turnê mundial 'Dois Amigos, Um Século de Música', Gil e Caetano tiveram seus significados potencializados, reforçando o que deixarão para a história.

Caetano é o ser político. Mesmo sem falar à imprensa com as mesmas frequência e voracidade de anos anteriores, o mero timbre de sua voz tem despertado brados por justiçamento. Os primeiros foram ouvidos quando ele começou a cantar 'Tropicália', composta em 1968. “Sobre a cabeça os aviões / Sob os meus pés, os caminhões / Aponta contra os chapadões, meu nariz / Eu organizo o movimento / Eu oriento o carnaval / Eu inauguro o monumento / No planalto central do país...” Um primeiro grito de “Fora Temer” encorajou mais alguns, abafados aos poucos pela força do próprio silêncio.

Algum tempo depois, Caetano, que se alinhou ativamente aos protestos de maio contra o fim do Ministério da Cultura como pasta exclusiva até que ela retornasse à ativa, volta a transferir no inconsciente de parte de sua plateia o passado para o presente mesmo sem citá-lo. Diz sem dizer, como fazia quando tinha de andar pelas entrelinhas para não ser degolado pela censura. “Quando eu me encontrava preso / Na cela de uma cadeia / Foi que vi pela primeira vez / As tais fotografias / Em que apareces inteira / Porém lá não estavas nua / E sim coberta de nuvens... / Terra! Terra! / Por mais distante / O errante navegante / Quem jamais te esqueceria?....” Os gritos, agora, ganham mais força. E o personagem fica evidentemente maior do que o próprio homem quando chega a música 'Odeio Você', que Caetano fez sem nenhuma intenção de manifesto. Ao final de cada frase “odeio você”, a plateia responde “Temer!”.

Gil é o ser humanista. Seu pensamento trilha o caminho contrário do de Caetano, começando a ganhar forma no lado de dentro do peito antes de se importar com as armas que estão apontadas para ele. Pode parecer politicamente mais ingênuo, mas não é. 'Domingo no Parque', seu primeiro épico lançado no Festival da Record, em 1967 (que acabou perdendo para 'Ponteio', de Edu Lobo e Capinam), equivale a quatro ou cinco 'Pra Não Dizer que Não Falei de Flores', de Geraldo Vandré.

Gil quer os corações, não o cérebro. Por isso canta João Gilberto com tanto sentimento e suavidade quando lembra de 'É Luxo Só', do álbum 'Chega de Saudade', de 1959. Por isso sente-se um homem melhor quando deixa que sua porção mulher domine seus atos e seus pensamentos, como revela em 'Super-Homem – A Canção'. Também por isso inspira-se desolado na mulher que deixava solitária, Sandra, recolhendo os cacos para confortá-la, dizendo que o amor da gente é como um grão, uma semente de ilusão que tem de morrer pra germinar. E ainda por isso canta a Bahia de todos as crenças e santos em 'Filhos de Gandhi', em 'Andar com Fé', em 'Eu Vim da Bahia'.

Há muitos anos que Gil decidiu encarar a morte. Inspirou-se e fez para ela canções como 'Se eu Quiser Falar com Deus', que não incluiu no repertório, e 'Não Tenho Medo da Morte', que cantou nas duas apresentações como se fosse uma oração às avessas. A morte o rondou recentemente, desde que ele foi diagnosticado com uma séria insuficiência renal, causa de duas internações, conforme informou a família e sua assessoria de imprensa. Agora, a própria se assustaria com os olhos esbugalhados e a voz sussurrada no grave que Gil usa para dizer que seu medo da morte só vai durar os segundos que ela precisar para levá-lo. Depois disso, como diz em 'Se eu Quiser Falar com Deus', estará curioso para saber se há no desconhecido do além algo minimamente parecido com o que o homem tentou explicar por tantos séculos.

As luzes se apagam e deixam Caetano no escuro, criando apenas uma sombra sobre Gil. Ele só usa a corda mais grave do violão, envia a voz para um passeio nos porões e canta o que agora parece algo tão real, um desabafo do homem que, ao mesmo tempo em que chora com a chegada da sorridente bisneta Sol de Maria, sente-se desnorteado pela possibilidade tão humana de poder não ver o amanhã: “Não tenho medo da morte / Mas sim medo de morrer / Qual seria a diferença / Você há de perguntar / É que a morte já é depois / Que eu deixar de respirar / Morrer ainda é aqui / Na vida, no sol, no ar / Ainda pode haver dor / Ou vontade de mijar / A morte já é depois / Já não haverá ninguém / Como eu aqui agora / Pensando sobre o além / Já não haverá o além / O além já será então / Não terei pé nem cabeça / Nem fígado, nem pulmão / Como poderei ter medo / Se não terei coração?” Só aqui ele se engana. O conjunto da obra de Gilberto Gil já lhe garantiu um coração eterno.

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