Fabio Motta / ESTADÃO
Fabio Motta / ESTADÃO

Crítica: Estupendo, catártico, robusto, um álbum de fazer Elba voar alto

'O Ouro do Pó da Estrada', um dos melhores discos de 2018, merece estar na galeria também dos melhores discos de Elba Ramalho

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

01 Janeiro 2019 | 06h00

A princípio, poderia ser interpretada como doidice de Elba Ramalho lançar um disco nesta entressafra de 2018/2019. Afinal, como considerá-lo? Em qual lista o colocamos? Injustamente, por razões cronológicas, O Ouro do Pó da Estrada não será lembrado pelas eleições das redações que escolhem os melhores do ano. Elba acaba de lançar um dos mais estupendos trabalhos da temporada, seja de 2018, seja de 2019.

Elba, mais que uma voz, é dessas artistas que, de tão fortes suas identidades, se tornam marcas. Isso também traz desafios. Afinal, como não se repetir? Como romper a casca criada por anos para seu próprio conforto? Como fazer que uma cabeça ativa há 67 anos pense diferente e entregue a mesma verdade?

As respostas estão na produção de Yuri Queiroga e Tostão Queiroga. Elba está em seu campo de atuação o tempo todo, mas ele vem potencializado, expandido, cheio do frescor jovial e de uma robustez sonora de fazer Elba levantar voo. Seu disco é fascinante, emocionante, catártico. E merece um espetáculo ao vivo bem dirigido. 

Yuri Queiroga e Manuca Bandini fizeram a música de abertura, Calcanhar, com texto incidental de Bráulio Tavares. São arranjos perfeitos para uma postura rock and roll de guitarras distorcidas que não atropelam os resfolegos da sanfona porque cada um sabe exatamente o seu lugar. E quando sente o peso que a sustenta, Ela muda do doce para a leoa.

Seus tons podem estar mais baixos, mas ela compensa o brilho que pode não ser o mesmo com o volume em regiões que não frequentava muito. Sua parceria com Ney Matogrosso em O Girassol da Caverna é daquelas de dar dor no coração do participante. Algo parece dizer que, tamanho o encaixe da voz de Ney na recriação da canção de Lula Queiroga, que ele, Ney, tenha pensando algo como “por que é que eu não gravei isso antes?” A embalagem de agora é, arrisca-se dizer, melhor do que a própria canção original, do antológico Baque Solto, de 1983, de Lula e Lenine.

O disco segue sem jogar tempo fora e chega a O Fole Roncou, de Luiz Gonzaga e seu conterrâneo pernambucano Nelson Valença – uma das raras aparições de uma guitarra elétrica em uma música de Gonzagão – trazendo mais uma faceta de Elba. Ela abre com um assombroso drive, uma distorção daquelas usadas por cantoras de blues como Etta James. A canção termina o giro com mais esse diálogo explosivo entre sanfonas e guitarras e deixa a sensação de que o ano de 2018 não teve fim.

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