Theo Skudra/Rock in Rio
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Crítica: Em surpreendente novo álbum de dança, Drake pisa no próprio pé

O rapper lançou ‘Honestly, Nevermind’ de surpresa na última sexta-feira, 17

Chris Richards, The Washington Post

22 de junho de 2022 | 10h00

Se você está tão cansado de Drake quanto eu, você já está cansado de estar cansado. Encontrar a doçura de sua voz em qualquer ambiente público me faz desejar que o século 21 me deixe em paz, e eu realmente não quero mais me sentir assim, porque, como ele nos ensinou em 2011, YOLO [You Only Live Once, algo como “só se vive uma vez”].

Então, quando arranquei o último álbum dele - o desnecessário Certified Lover Boy, de setembro - do meu sistema, tomei uma decisão: em vez de esperar que a próxima música de Drake se materializasse contra minha vontade feito uma erupção cutânea ou uma chamada automática, eu tentaria recalibrar minha audição. Em vez de ouvir a redundância, eu ouviria o compromisso. Em vez de ouvir solicitude, eu ouviria generosidade. Em vez de ouvir músicas de rap, eu tentaria ouvir a implacável mesmice de Drake como se ele estivesse fazendo drone music - como Pauline Oliveros, ou Pandit Pran Nath, ou Future, ou Lungfish, ou Laraaji, ou Ramones. Em vez de ser uma irritação onipresente, Drake talvez pudesse ser o zumbido do mundo.

Então, na sexta-feira, ele facilitou minha missão lançando quase exatamente isto: um álbum surpresa intitulado Honestly, Nevermind que faz um bem-vindo desvio rumo à pista de dança, numa zona de repetição extática. Ao longo de uma sequência constante de ritmos 4/4, Drake quase nunca faz rap e prefere cantar daquele jeito que o algodão-doce se acumula no palito girando.

Conceitualmente, o álbum se qualifica como a lâmpada mais brilhante a aparecer sobre sua cabeça em mais de uma década, então é uma pena que tudo acabe dando errado nessa sua projeção astral de 52 minutos. “Procurando um jeito de ficar fora do caminho”, ele canta todo animado no início do álbum, reconhecendo sua recusa em competir com Kendrick Lamar pela coroa do rap, ou talvez fazendo uma promessa estética que ele sabe que não poderá cumprir. Porque, em termos musicais, Drake simplesmente não consegue ficar de fora. Ele está muito apaixonado pela doçura de sua própria voz - e aqui ele parece estar ouvindo a si mesmo ainda mais de perto, permitindo que o excesso de confiança de seu fraseado atrapalhe a aerodinâmica. Tentando soar despreocupado, acaba soando descuidado.

Ele também fez um álbum de dança que não transpira. Em termos das próprias faixas, Honestly, Nevermind é repleto de referências estilosas a Chicago house, Baltimore club e a outros estilos regionais de Black music, mas os produtores do álbum aparam as respectivas arestas até que tudo soe tão suave quanto o homem que está segurando o microfone. Até pode haver uma simetria de princípios nessa tática, mas os pulsos acabam parecendo muito fracos para induzir qualquer tipo de estado de transe, muito menos um compromisso na pista de dança.

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'O álbum se qualifica como a lâmpada mais brilhante a aparecer sobre sua cabeça em mais de uma década'
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Então, para onde vai toda essa suavidade quase dançante? Honestly, Nevermind parece propulsor, com certeza, mas não pensado para boates e sim para fones de ouvido, H&M e TikTok. Isso porque Drake está mais interessado em alcançar as pessoas do que em tirá-las do lugar. Seu talento para pôr sua música em espaços onde multidões já estão reunidas fez dele um dos superstars mais experientes do nosso tempo - mas continua a fazer sua música soar como nosso ambiente cultural mais insidioso: a publicidade. Mesmo quando assume novas formas agradáveis, uma faixa de Drake ainda é apenas um comercial para Drake. Ainda não consegui recalibrar minha audição para isso. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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