Rafaella Pessoa
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Crítica: Concerto de Neil Thomson é movido a habilidade e sabor

Maestro inglês consegue resultados excepcionais com a Filarmônica de Goiás, tendo Prokofiev no programa

João Marcos Coelho  , Especial para o Estado

08 Julho 2018 | 21h11

Depois de brilhar nos concertos da Osesp de 21 a 23 de junho, o regente inglês Neil Thomson, 52 anos, trouxe a “sua” orquestra – a Filarmônica de Goiás – para concerto no sábado, 7, à tarde, na Sala São Paulo.

Fiz questão de assistir, porque suas atuações com a Osesp me deram a sensação de que ele pode ser o maestro ideal para suceder a Marin Alsop no ano que vem. Os músicos o adoram e a musicalidade é sempre impactante. Nada sei sobre negociações envolvendo o nome do novo titular – mas ele deveria ser levado em conta.

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E não só por seus concertos com a Osesp, mas também por seu impressionante trabalho de apenas três anos com a Filarmônica, que assumiu em 2015. O jovem grupo tem personalidade e obtém ótimas interpretações ao vivo e em gravações. 

O violinista brasileiro Luis Filipe Coelho – que mudou seu nome artístico para Luíz Fílip, assim mesmo, com acentos nos dois “is” – não é mais promissora promessa. Aos 33 anos, é virtuose consumado, integrante da Filarmônica de Berlim. Construiu uma interpretação emocionante do delicioso segundo concerto de Prokofiev, escrito em 1935 e estreado em Madri.

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Além disso, Thomson fez a orquestra interagir com Fílip nos muitos ritmos quebrados nos movimentos rápidos e acolchoá-lo no lírico Andante assai central. 

Como no concerto com a Osesp em junho, o repertório de novo foi bem sacado. Thomson juntou esse concerto a uma sinfonia de 1935, exatamente contemporânea, a primeira do inglês William Walton (1902-1983), compositor raramente tocado por aqui. Com mais de 40 minutos, é obra ambiciosa em sua arquitetura: quatro movimentos e enorme habilidade no trato com as vastas sonoridades orquestrais.

Walton, aliás, gostava de grandes massas sonoras (vide seu monumental oratório O Festim de Baltazar). Mas, ao mesmo tempo, era amigo de Gershwin, apaixonado pelo jazz e autor da saborosa Façade, para seis instrumentos e narrador. Tem fino humor e exige muito da orquestra, que se saiu bem (deve ter ensaiado muito).

Em entrevista à revista Concerto deste mês, Thomson diz, a propósito dos jovens regentes de hoje em dia: “São muito bons tecnicamente, mais que minha geração, mas muitos deles não sabem ensaiar uma orquestra, corrigir problemas”. Ora, essa é justamente uma reclamação recorrente de nossos músicos (inclusive muitos da Osesp) em relação aos regentes brasileiros.

E Thomson prova que é ótimo ensaiador, ao conseguir resultados excepcionais com uma orquestra jovem como a de Goiás. Na mesma entrevista, anuncia aquele que deve ser o mais importante projeto musical brasileiro da próxima década (equivalente à recém-concluída integral sinfônica de Villa-Lobos pela Osesp com Karatuchevsky): a gravação para o selo Naxos da integral das 14 sinfonias de Claudio Santoro, o maior sinfonista que o País já teve. Sem dúvida, como Thomson avalia na mesma entrevista, “se fosse um compositor europeu, ele seria tão tocado quanto Shostakovich”.

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