Amanda Perobelli/ Estadão
Amanda Perobelli/ Estadão

Crítica: Chico Buarque em outro tempo

Seis anos depois de sua última temporada, artista chega ressignificado a São Paulo com o show de 'Caravanas'

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

02 Março 2018 | 08h05

A ação do tempo fica mais evidente em  Chico Buarque. Seus intervalos de sete em sete anos entre uma temporada de shows e outra são retratos não só de sua musicalidade reavaliada e de sulcos mais profundos em sua face mas também do material que lhe dá origem: a vida, o Brasil, os sonhos.

Chico esteve na noite de quinta, 1º, no Tom Brasil. Já não era o mesmo homem da turnê de 2011\2012. Estava ali mais lento em seus movimentos, mais latente em seu conteúdo crítico e talvez com as músicas de um disco novo das mais relevantes de seus últimos álbuns. 

O Brasil que estava na plateia também não era o mesmo. Aos poucos, os gritos que antes o tinham como alvo exclusivo  (lindo, gostoso e casa comigo) são trocados por manifestações de apoio ideológico. Até 2012, Chico era a ideia de homem perfeito, a tradução masculina tão esperada dos mais complexos sentimentos femininos, um fetiche da alma. Em 2017, é também um lastro de frustrações políticas, o depósito de alguma esperança por um projeto de Brasil que não chegou a ser. O problema é de quem o reduz a apenas isso. 

Com o suingue europeizado de sua banda branca, mesmo Chico Batera está ali domesticado na regulagem de estúdio que leva o show por quase duas horas, as canções ganham certa linearidade, só quebrada no último terço do show com A História de Lily Brown. Ainda que sem novidades em arranjos, as canções falam por si e funcionariam mesmo no banquinho e violão. Chico chega mais perto de sua plateia quando canta Iolanda, A Volta do Malandro e As Vitrines. E faz um movimento contrário com momentos como Casualmente (sua parceria com Jorge Helder). 

Faz sua homenagem a Tom Jobim quando diz que gostaria de ter feito Retrato em Branco e Preto antes de tocá la e a Wilson das Neves, morto ano passado, usando chapéu de malandro em Grande Hotel, parceria dos dois amigos. E chama seu neto, Chico Brown, filho de Carlinhos, como seu parceiro mais amado depois de cantar Massarandupió.

As novas canções, trabalhadas desde o meio de 2017, comprovam uma estratégia que funciona. Ao divulgar nas redes quase que canção a canção, Chico fez algumas polêmica e as tornou conhecidas. Assim, Blues pra Bia, As Caravanas e Tua Cantiga chegam ao palco com o mesmo status de Gota D'água ou Partido Alto, cantadas como se já fossem clássicos.

Chico Buarque deixa o tempo mais evidente. Essa entidade que nos consome aos poucos é implacável até com aqueles que pensamos um dia que fossem imortais.

   

 

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