Julio Maria
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Crítica: Camisa de Vênus salva geração 80 da deterioração nostálgica

Festival que teve Ira!, Titãs e Ultraje a Rigor deixa evidente a ação do tempo em algumas bandas enquanto prova a superioridade técnica dos baianos liderados por Marcelo Nova, o único animal de palco, 'detestável, teatral e arrebatador', produzido em seu tempo

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2022 | 19h51

É bem mais do que estar em um “festival com bandas que fizeram história no Brasil dos anos 80” justamente porque, aos jovens que viviam a tal história do Brasil dos anos 80, Ultraje a Rigor, Titãs, Ira! e Camisa de Vênus não são bandas, mas pedaços da própria carne, sopros de uma primeira existência autônoma, salvações contra nossas invisibilidades juvenis. Vê-los então em um grande palco, um após o outro, é como olharmos, ao lado de oito mil pessoas, para um gigantesco espelho. Somos muitas cabeças gris beirando os 50 para cima ou para baixo, passamos boa parte da vida trabalhando e tentamos ser felizes e ativos em alguma medida, mas não somos iguais. Envelhecemos bem ou envelhecemos mal, assim como Ultraje a Rigor, Titãs, Ira! e Camisa de Vênus.

Os shows, exatamente nesta ordem, se deram no último domingo, 10, em um festival que vem percorrendo o país com o nome de Rock Brasil – 40 Anos. É o repasse mais consistente do que já foi feito sobre o período, com filmes, debates e shows, muitos shows. Os cenários são todos em verde e amarelo e as empresas que investiram, também: Ourocard, do Banco do Brasil, e Vibra Energia, antiga BR Distribuidora. Ou seja, Governo Federal. Ainda assim, os preços do primeiro lote, de R$ 160, que podiam chegar a R$ 220 nos seguintes, e os R$ 14 por uma latinha de Budweiser servida apenas mediante a aquisição de um copo de plástico por mais R$ 8, não pareciam exatamente atender a algum critério de política pública. Um pouco de reflexão comparando as músicas que ensinavam um adolescente a pensar nos anos 80, colocadas antes dos shows pela ótima DJ Nicole Nandes, com algo do que se via ao redor enquanto pisávamos em um solo projetado pelo comunista Oscar Niemeyer poderia gerar alguma confusão mental, e gerava. Mas, enfim, os shows começaram.

O Ultraje a Rigor veio ainda pela tarde. De Nós Vamos Invadir Sua Praia, o álbum de 1985 que viu cada faixa virar hit, mostrou quase tudo. Eles fugiram um pouco do script quando Roger cedeu a guitarra a Luis Sérgio Carlini, lendário Tutti-Frutti, uma visita inesperada no palco, e deu voz ao backing Ricardo Júnior, que cantou Long Tall Sally, conhecida com  Little Richard. O som que chegava à plateia, ou parte dela, estava um tanto abafado e com pouca timbragem, o que pode ter prejudicado a percepção de mais detalhes mas não de uma possível sensação: mesmo com a força da sátira de lições do pop como Sexo! e Inútil ainda pulsante para qualquer lado que se olhe – e esperamos sempre que nossos ídolos não se alinhem a lado algum que não seja a contrariedade talvez para justamente podermos abrigar qualquer de nossas revoltas em suas canções – o envelhecimento do Ultraje a Rigor se dá dentro de uma nostalgia conservadora. O tio que nos mostrou a força de um palavrão quando ele era o máximo de nossas transgressões, nos fez perder a vergonha diante de nossos sexos censurados dentro de casa e nos deu algum alento no caos que era ter 14 anos em 1985 agora nos faz rir. E não muito mais do que isso.

Os Titãs vieram em seguida com apenas dois dos integrantes originais, o tecladista Sergio Britto e o guitarrista Toni Bellotto. Branco Mello, ainda convalescente de um tratamento contra um tumor retirado da hipofaringe, apareceria na segunda parte do show como uma surpresa comovente. Assumiria o baixo para tocar Epitáfio, Enquanto Houver Sol e algumas outras antes de deixar o palco e voltar para fazer Polícia com um andamento alucinante e, enfim, “digna dos velhos tempos”. Beto Lee, filho de Rita, reforçava as guitarras e ajudava os rapazes. Ele chegou a cantar Televisão com alguma dignidade, mas aqui chegamos ao ponto que nos desconecta dos Titãs que queríamos levar para sempre mas que perdemos a cada show.

Desidratados de integrantes que saíram para tentar não viver apenas de um passado, o grupo vai ficando sem voz e, por consequência, sem alma. Sérgio Britto canta com um sofrimento de afinação angustiante. Há quase atos inteiros, como Homem Primata, feitos pelas bordas do tom. E Toni Bellotto, um cara pelo qual torcemos, está ali dando seu melhor, o que jamais foi conduzir uma banda. Sua voz também está sempre em apuros e sua composição Canção da Vingança, de 2017, talvez seja um momento constrangedor a ser revisto neste repertório em nome do passado. O que os ajuda é a “voz imaginária”, aquela que não sai da boca do cantor mas que é a que ouvimos por estar em nossas poderosas memórias afetivas – memórias criadas por eles. Os  Titãs, que nos ensinaram a não aceitar o que nos vendiam pelas televisões, chegaram longe, mas precisamos entender que aqueles que estão ali são os símbolos que restaram de um outro tempo. Eles envelhecem sem conseguir espaço e dignidade no hoje.

O Ira!, que fecharia a noite logo depois do Camisa de Vênus, chegou enfraquecido e estranhamente frio a maior parte do tempo, com pouco que lembrasse o grupo mesmo de reconsagrações recentes do pós brigas internas entre Nasi e o guitarrista Edgard Scandurra, como o show histórico feito na Virada Cultural de cinco ou seis anos atrás. Músicas escolhidas para instantes equivocados podem ter trabalhado contra o clima de um grupo que sempre teve em São Paulo sua plateia mais voraz e sempre respondeu a ela da mesma forma. Nasi parecia não conseguir se conectar com o show e Scandurra, ao menos para a região central da plateia, mal conseguia fazer sua guitarra timbrar como gosta. Foi um tanto frustrante vê-los, 40 anos depois da origem do Rock Brasil, sem conseguir sustentar minimamente o que os baianos do Camisa de Vênus havia acabado de levantar.

Marcelo Nova fez um estardalhaço. Ainda que da mesma geração dos roqueiros que assumiram a condição memorialística dos clássicos, seu Camisa de Vênus fez a noite subir alguns bons degraus do andar em que estava quando os Titãs saíram do palco e descer ao mesmo patamar depois, com a entrada do Ira!. Seu show é violento, perturbador, feroz, irritante, inegociável, arrebatador, detestável e cheio de esperanças em algo que não sabemos bem o que é mesmo quando retirado das idiossincrasias mais contestáveis do líder Marcelo. Antes de tocar Silvia, de 1986, parceria com o baixista Robério Santana, ele colocou o dedo na ferida e o torceu dizendo algo assim: “Nós ficamos muito tempo sem tocar essa música porque achávamos que era uma m... mesmo. Mas agora que começou essa coisa de nojinho, de politicamente correto, de influencer, é agora que vamos tocar.”

Silvia é detestada pelos movimentos de afirmação de gênero, por anti-machistas e pessoas de algum bom senso em geral, e com razões para isso. Um trecho mais publicável diz assim: “Você me diz que não tá mais saindo / Mas eu desconfio que cê tá me traindo / Ô Silvia, piranha!!! / Vive dizendo que me tem carinho / Mas eu vi você com a mão no p... do vizinho...”. E segue: “Todo homem que sabe o que quer / Pega o p.. pra bater na mulher.” Ele provoca e chama a atenção da imprensa antes de começar: “Vocês aí das TVs, prestem atenção no que vai acontecer, depois digam se é machismo.” Então, quando está no meio da música, diz que as mocinhas da plateia estão se esgoelando de tanto cantar. É odioso e é confuso, mas parece ser dito não por um misógino convicto, mas por alguém que sabe de seu papel naquele teatro. Como um Philip Roth dos roqueiros, só quer tirar um pouco as coisas de seus lugares. 

A superioridade técnica do Camisa deixa quase impossível não pensar que, dos “tios” produzidos pelo rock 80, Marcelo Nova talvez seja um dos poucos que envelheça bem justamente por não ter medo de envelhecer mal e de não ter perdido a coragem de desagradar. Ele debocha da igreja rezando parte do pai-nosso ajoelhado, simula penetrações ao dançar e volta a atacar “os influencers”, movimentando-se por todos os espaços como, mais do que o líder de banda, o único e genuíno animal de palco criado em seu tempo. A base sonora de seu Camisa de Vênus é rejuvenescida por dois guitarristas jovens, pesados e vibrantes: o filho Drake Nova e Leandro Dalle, além dos veteranos Robério no baixo e Célio Glouster na bateria. Eles sabem criar um paredão de chumbo que os Titãs perderam mesmo para músicas repassadas como Gothan City, Simca Chambord e Eu Não Matei Joana Darc, mas também para coisas mais recentes, como Agulha no Palheiro, que as torna verossímeis e atemporais. Não é preciso gostar do que diz Marcelo Nova, e nem sempre gostamos, mas sua existência ereta de 70 anos tem salvado o legado do que chamamos de rock nacional.

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