Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Crítica: Beth Carvalho, que se apresentou deitada em São Paulo, não merecia a dor, nenhuma dor

Imagem da sambista na cama para cantar com o grupo Fundo de Quintal foi de uma crueldade bíblica

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2018 | 11h52

A imagem de Beth Carvalho cantando deitada ao lado dos músicos do Fundo de Quintal, sentados a seu redor, é das mais fortes já vistas nos palcos. Assim que a cortina sobe, ela aparece ainda sentada em sua chaise long fazendo um número de abertura, Ô Isaura.

Mas, ao terminar, fala com elegância e pede desculpas. As dores que partem de sua coluna são fortes e não dão trégua.

"Eu vou precisar ficar deitada, gente." Uma assistente se aproxima e a ajuda se ajeitar. Beth é coberta por um tecido de seda, a cabeça encontra a melhor posição sobre um travesseiro e ela se deita completamente depois de deixar tudo um pouco mais leve ao fazer a melhor piada de si mesma.

"Não tem Na Cama com Madona? Vou fazer então o Na Cama com Beth Carvalho".

Assim se passa um show que fez história na noite desta sexta,28, no Credicard Hall. Beth estava ali para lembrar dos 40 anos desde que levou o grupo Fundo de Quintal da quadra da escola de samba Cacique de Ramos, na zona norte do Rio, para um estúdio, chamou Rildo Hora para produzi-los e fez um discaço.

De Pé no Chão trouxe extremos espirituais do samba, como a triste Que Sejam Bem Vindos, de Cartola, e a eufórica Goiabada Cascão, de Nei Lopes e Wilson Moreira. Mostrou a chegada de uma turma nova, que já recebia Beth nas rodas do Cacique havia um ano. "Eu ia com meu Puma, chegava e ficava cantando com eles. Até o dia em que entendi que deveria levá-los para gravar comigo", ela lembra no show.

O samba que Beth inaugurou com o Fundo, que trouxe o repique de mão estilhaçando o ritmo inventado por Ubirany e o banjo de som metalizado levado por Almir Guineto, potencializou o poder de fogo do que já se chamava partido alto. O samba do desafio, dos versos improvisados como o rap faria em suas rinhas ou o repente e o coco já faziam em suas rodas, ficou irresistível.

O Fundo e Beth criaram juntos o samba do impossível, da conversão imediata, o samba do sequestro que toma a alma e o corpo de quem se aproxima, independente de sua crença, de sua cor, de sua postura social ou política. A sensação é de que diante de Beth e do Fundo de Quintal, todos somos iguais.

Mas ali estava ela, a 'rainha'. Deitada em sua chaise long, Beth era a imagem do esforço. A mulher que teve o sorriso mais generoso abrigando sob sua aba Zeca Pagodinho quando ninguém o conhecia; Arlindo Cruz quando era só um menino; Almir e Sombrinha; de Luiz Carlos da Vila aos paulistas do Quinteto em Branco e Preto, a mulher que trouxe junto em 1988 Cartola quando o efeito Nara Leão já havia passado, que pegou Nelson Cavaquinho pela mão para imortalizar suas Folhas Secas, que incomodou Elis Regina de tanto ser incensada como 'a melhor do samba', essa mulher estava deitada.

Beth cantava, erguia o braço para pedir que a plateia viesse com ela, apontava para os músicos mesmo sem vê-los. 

Mesmo que faça isso sem nenhum profissionalismo, tente cantar deitado, de diafragma comprimido. A respiração aperta e a sensação é de sufocamento. Tente então cantar deitado sobre efeito de remédios analgésicos. Beth fez isso pelo samba, dizendo o nome dos autores, de cada um deles, depois de cada música, uma postura de seu caráter de sempre.

Pediu palmas para o também acamado Arlindo Cruz, o maior criador de partidos da história, vítima de um AVC. Emocionou uma casa lotada ironicamente curando os males que fossem por aquelas quase duas horas de samba. Na Batucada de Nossos Tantãs, Passarinho, Visual Coisinha do Pai.

A cena de Beth na cama, se esforçando para chegar às notas de O Show tem que Continuar ou retomá-las quando elas lhe escapavam pelas pontadas da dor, bloqueavam o transe em alguns momentos e traziam o público de volta para uma crueldade bíblica. Alguns seres não mereciam a dor, nenhuma dor, sobretudo os raros seres que dedicaram suas vidas para salvar outras vidas. 

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