FILIPE ARAUJO/ESTADÃO
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Crítica: ao lado de Paulo Monarco, Dandara limita a liberdade de seu espírito

Álbum 'Dois Tempos de Um Lugar' mostra dois artistas cheios de criatividade e segurança, mas formato inibe os grandes mergulhos dos quais a cantora é capaz

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2016 | 09h00

Há um paradoxo na beleza do disco do duo Paulo Monarco e Dandara, 'Dois Tempos de Um Lugar'. Ele é delicado, tem o sopro das grandes novidades, é exigente na percepção de sons e poesia e é profundo, de uma profundidade que parece não acabar mais. Sua linguagem, definida na produção do violonista Swami Jr e do compositor Tó Brandileone, coloca as vozes em flutuação sem a rede de segurança armada pelas harmonias mais cheias. É um álbum de vazios e efeitos. Efeitos nas cordas do violão, nos ecos nas vozes, nas ideias e mais ideias. Um bom exemplar de explosão criativa cheia da pretensões de quem chega com a certeza de que tem algo a dizer. Alguns artistas sobrevivem a essa fase, como Tom Zé e Jorge Mautner, e criam assim a vida toda. Outros lançam seus mais proeminentes discos apenas nessa temporada, com se fizessem com eles um plano de previdência privada.

O paradoxo está na união de Monarco e Dandara. Ela é ótima para o disco, que ganha em dramaticidade, mas pode ser discutível para as carreiras. Há algumas aberturas de vozes e outros contrapontos, mas muitos momentos de uníssono, em que os dois cantam juntos, as mesmas notas e palavras, como a quase declamação paulistana de 'Trovoa', de Mauricio Pereira; a forte 'Ame', de Monarco e Kleber Garcês; e 'Uni Duni Tê', de Monarco e Marcelo Segreto, do grupo Filarmônica de Pasárgada. Em 'Dois Tempos de Um Lugar', a canção, de Celso Viáfora, revezam os versos, e em 'Tem Dó' se juntam a um terceiro elemento, parceiro de Monarco na criação, Zeca Baleiro. Até que em algum momento chega a bela e triste 'Toca Aí', de Túlio Borges, e acontece o milagre que se esperava de Dandara: sozinha, sua emoção vai às alturas com a mesma beleza que se joga nas profundezas.

Ela canta com a voz que sai do sussurro, acreditando em cada palavra, sofrendo com o “choro que há em mim por mil razões que sei e mais dez mil que herdei”. Há lágrimas em sua respiração, e lágrimas reais, não técnicas. Enquanto Monarco vem com as boas criações, Dandara é um assombro de interpretação. Por isso, a lebre levantada sem muita elegância com o bem aventurado Monarco, mas sincera: não seria o caso de, em seu primeiro disco, criteriosamente pensado e gerido por anos, Dandara vir só? Quem a viu em outras situações sabe que ela vai além do que foi nas canções gravadas em duo. E duos assim são limitadores para seu espírito livre, inibidores de seus saltos sem paraquedas. Ela precisa se controlar, pensar no outro, dosar seu volume, sua emissão. Paulo Monarco pode ter feito um ótimo trabalho, mas o grande disco de Dandara ainda está por vir.

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