Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Crítica: Ao colar em Macy Gray, Nando Reis dá sinal de preguiça criativa

Dentro do belo disco 'Jardim-Pomar', a existência de um quase-plágio acende o sinal amarelo nas ideias do compositor

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2016 | 05h00

A música até agora mais importante do disco de Nando Reis, Só Posso Dizer, tem mais do que a atmosfera de I Try, de Macy Gray. Ela obedece à mesma sequência harmônica, à mesma base de refrão, e conta com a mesma pausinha na primeira parte. O espírito de Macy está ali. Não seria tecnicamente um plágio porque a melodia é outra, mas o clima, que é o que importa, é exatamente o mesmo. E quem compõe, sabe: usar-se de uma base consagrada na memória pop coletiva recente, mudando apenas a melodia e o arranjo, é meio caminho andado para que aquela canção funcione.

Nando não precisaria de um plágio a essa altura de sua vitoriosa carreira e, sim, o rock e a música brasileira estão cheios das mesmas sequências harmônicas. A questão aqui, se Nando realmente não percebeu a cola, parece ser mais de um caso de vírus encubado, aquela informação que se aloja na memória do compositor e que vem à tona à sua revelia, silenciosamente, quando ele passa a buscar pelas primeiras fagulhas criativas de uma nova canção. Só espanta o fato do descuido (se podemos julgar assim) ter passado por tanta gente, incluindo seus produtores gringos Jack Endino e Barret Martin.

Jardim-Pomar é, contudo, um belo disco, com as duas faces de um compositor baladeiro/roqueiro que já mostrou pela estrada em que caminha que pode ser ótimo quando sua a camisa ou medíocre em versos e soluções fáceis quando registra apenas suas primeiras ideias. A fórmula do rock Infinito Oito, como a dos rocks em geral de Nando, não é a reinvenção da roda, mas aqui ela é fruto de suor. Sai com força, cheia de detalhes e bem arranjada, e assim segue o primeiro terço do álbum, passando pelo folk 4 de Março. Lobo Preso em Renda é outra grande canção autoral, mesmo sendo feita à sombra de alguma grande canção autoral de Bob Dylan. O violão de cordas de aço é sua força, e ele volta a usá-la em Concórdia, na tocante Água Viva e em Azul de Presunto. Somos Como é a canção que fez o parceiro Samuel Rosa lhe dar um não ao perceber que a letra poderia ser muito melhor. Nando, mexido em seus brios, trancou-se no quarto disposto a calar a boca do parceiro e refez tudo. É isso o que falta aos artistas estabelecidos, mais desafio e menos bajulação. Só Posso Dizer

Macy Gray - I Try

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