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Crítica: A massa há de comer o pop banana de Júlia Vargas

Cinco anos se passaram e Júlia passa com louvor na prova do segundo disco de estúdio; mais segura de seus recursos vocais, a cantora faz um disco contemporâneo, do seu jeito

Renato Vieira, O Estado de S.Paulo

30 Maio 2017 | 07h00

Quem vai querer comprar o pop banana de Júlia Vargas? A pergunta, feita pela própria cantora em meio à explosão do naipe de sopros na faixa que abre seu disco, é pertinente. Afinal, o sinal está vermelho para a fruição e circulação da música brasileira pela massa. E por suas conexões com Ivan Lins e Milton Nascimento, que a avalizaram logo que seu primeiro álbum saiu, Júlia até agora foi mais comentada do que ouvida. Mesmo distribuído pela Sony, o trabalho de estreia ficou restrito à internet, quase escondido. Alguns mais atentos procuraram saber quem era aquela jovem tão bem apadrinhada e confirmaram: havia ali uma grande voz esperando o momento de chegar ao grande público como merecia.

Cinco anos se passaram e Júlia passa com louvor na prova do segundo disco de estúdio. Mais segura de seus recursos vocais, a cantora faz um disco contemporâneo, do seu jeito. Tango, forró, balada e dissonâncias em geral estão em seu liquidificador e formam um conjunto coeso. Os sopros dão o tom de Pop Banana e são a cama ideal para que Júlia deite e role, assumindo como regra o risco de não entregar o óbvio, transitando pela marginalidade com prazer. 

Ela aposta em compositores que ainda buscam seu lugar ao sol, como Claos Mózi. Em uma canção deste, De Riso e de Rosa, a cantora deixa explícito seu pensamento. “Odeio o juízo/ A loucura tanto bate até que fura”. Também vai no baú dos (hoje não mais) “malditos” Jorge Mautner e Nelson Jacobina – sua versão de Samba Jambo é deliciosa – e Tom Zé, fechando o disco com Mã, em uma versão de quase cinco minutos adornada por um acordeom distorcido e pífanos. Em vez de recorrer a canções batidas eternizadas por Elis Regina, Júlia buscou Comadre, lançada por ela em 1973 e nunca regravada.

A grande evidência de sua coragem e sagacidade, porém, é cantar Lady Jane, que parecia esquecida. Olívia Byington já havia feito a interpretação definitiva da música de Nando e Geraldo Carneiro. Com seu clima etéreo, a balada ganha nova vida com o violoncelo de Federico Puppi e as flautas e clarinete de Marcelo Bernardes. A voz de Júlia parece passear sobre as catedrais de Babel da letra apocalíptica.

Vale destacar as adesões de Pedro Luís no xaxado Pulmão, e, mais especialmente, a de Ney Matogrosso em Pedra Dura. Está em ótimas companhias. E Júlia pode ficar tranquila. A massa, pelo menos a que se interessa por música como forma de arte, ainda há de comprar o pop banana que ela fabrica.

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