Hiroyuki Ito/The New York Times
Hiroyuki Ito/The New York Times

Crítica: A magia do piano improvisado de Jarrett

Álbum de 4 CDs recém-lançados pela ECM é obra de rara beleza

João Marcos Coelho   / ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2017 | 13h09

Durante 20 anos, o pianista Keith Jarrett não quis ouvir o registro de suas quatro últimas performances em recitais solos sem tema prévio em cidades italianas, em 1996. Ele inventara a fórmula em 1975, quando, pela primeira vez, fez um recital na cidade alemã de Colônia em que tocou o que lhe vinha à cabeça. Fez pura música improvisada. O bolachão vendeu mais de 2 milhões de cópias nestes 40 anos.

As performances em Módena, Ferrara, Turim e Gênova foram as derradeiras antes que a síndrome da fadiga crônica o emudecesse por dois anos. Jarrett, hoje com 71 anos, é um dos casos mais conhecidos dessa doença pouco conhecida. Seus sintomas são depressão, dores musculares; o doente mal consegue sair da cama.

Ela se instala depois de um resfriado, gripe, sinusite ou outro processo infeccioso. Por motivos desconhecidos, a infecção vai embora, mas deixa em seu rastro sintomas de indisposição, fadiga e fraqueza muscular que melhoram – mas retornam periodicamente, em ciclos, durante meses ou anos. Ou por toda a vida. 

Daí o pânico de Jarrett. Ele estava com 51 anos e já apresentava os sintomas da doença pouco antes dos recitais marcados para Módena, Ferrara, Turim e Gênova, entre 23 e 30 de outubro. Ficava o dia inteiro na cama do hotel. Só se levantava para ir ao teatro. Foram suas últimas aparições públicas em dois anos. 

No texto do folheto do álbum de quatro CDs recém-lançados pela ECM, ele diz ter pressentido que seriam suas últimas performances em público. Que ele jamais voltaria aos palcos, muito menos tocar. Na época, mergulhou no sufismo de Gurdjieff; por isso, deu-lhes o título geral de “uma multidão de anjos”. Pois foi, diz, uma multidão deles que o ajudou a vencer a síndrome. “Reouvir pela primeira vez essa música depois de tanto tempo me convenceu de que este é um momento culminante de minha carreira.”

De fato, esses improvisos são mágicos. Parecem o derradeiro documento da arte de um pianista singular no universo das músicas improvisadas. Mesmo sentindo náuseas constantemente, como confessa no texto de 2016, ele parece sublimar o sofrimento em improvisos de rara beleza. O tom elegíaco domina a primeira parte do improviso em Módena: são 34 minutos que Robert Schumann assinaria de bom grado. A referência ao compositor romântico, entretanto, não significa que estamos diante de um pastiche. Ao contrário, é Jarrett puro em um lirismo tocante.

Mas nem tudo são flores. Se você saltar direto para a primeira parte do derradeiro recital, em Gênova, duvidará se está diante do mesmo pianista. A abstração complexa, dissonâncias e ritmos marcados o aproximam bastante de Bartók. De novo, sem pastiche. Afinal, os músicos nutrem-se de influências para criar o novo. Ouça várias vezes cada parte. Mergulhe nessa viagem.

“Quem me empurrou para não cancelar esses recitais, mesmo doente?”, pergunta-se Jarrett no final de seu comovente texto. “Os anjos. Eles incluíram tudo ao meu redor: o público, os pianos, a doença (anjo da morte?), o gravador Sonosax DAT, meu empresário e minha mulher (não exatamente nessa ordem).”

Ainda bem que essas performances foram preservadas e os MP3 estão sendo vendidos a menos de US$ 8, uma pechincha. Pois constituem momentos culminantes da arte do improviso sem tema prévio, fórmula que dá a Jarrett lugar garantido como um dos grandes da música contemporânea.

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