Cristina Buarque homenageia o samba de Mauro Duarte

Cantora lança com o grupo Samba de Fato o CD duplo 'O Samba Informal de Mauro Duarte'

Francisco Quinteiro Pires,

02 de março de 2008 | 16h57

O sambista Mauro Duarte de Oliveira é aquele caso em que seu nome é bem menos conhecido do que as suas músicas. Ele entrou de fato para a história do samba, mas ficou à sombra dos parceiros de letras, como João Nogueira e Paulo César Pinheiro. É comum ouvir, até entre apreciadores da batucada, que Lama, O Canto das Três Raças, Portela na Avenida e Meu Sapato Já Furou são sambas de Clara Nunes, do quais é apenas a intérprete. Para fazer justiça à importância do compositor nascido em Minas, mas tarimbado no Rio, no bairro de Botafogo, Cristina Buarque e o grupo Samba de Fato lançam o álbum duplo O Samba Informal de Mauro Duarte (Deckdisc, R$ 44) amanhã, às 21 h, no Centro Cultural Carioca, no centro do Rio. Ouça  'Lenha na Fogueira', com Cristina Buarque e grupo Samba de Fato   Informal é um adjetivo fundamental. Aldredo Del-Penho, do Samba de Fato, se aliou ao pesquisador Paulo César de Andrade, que já fazia um levantamento da discografia do Mauro Duarte (1930-1989). Dessa união de esforços, além de 10 sambas registrados em discos, mas poucos conhecidos, resultaram 17 inéditos, entre os lembrados por parceiros de Mauro, como Walter Alfaiate, e os recolhidos no acervo da família. Quatro vinhetas com a voz do Bolacha, apelidado assim por conta de seu rosto redondo, terminam de compor o CD. (Era comum ele chegar em casa e gravar em cassete as primeiras partes das composições nascidas quando estava em botecos e ou na rua). "Era um repertório registrado informalmente, tanto na memória dos amigos como em cadernos de anotações de Mauro", diz Del-Penho. Algumas composições foram terminadas por Paulo César Pinheiro, que canta no disco. "As melodias do Bolacha têm temas muito fortes, você pode expandi-las facilmente", dizDel-Penho. É como se cada frase musical produzisse um mote que poderia ter sido desenvolvido no espaço inteiro de uma composição. Del-Penho, violonista do Samba de Fato (Pedro Amorim, Pedro Miranda e Paulino Dias), explica que os sambas de Mauro são raros, em tom menor: ele tem um sotaque melódico próprio, com nuances e variações, criado pela intuição. Apesar de não tocar nenhum instrumento harmônico, Bolacha era um melodista que sabia percorrer, intuitivamente e à base do batuque, os caminhos do sentimento que há em toda composição. Segundo Del-Penho, a melhor explicação para o autor de Lama não estar brilhando no panteão do samba é de Elton Medeiros: Mauro não se dedicou a escolas de samba, mas a blocos de carnaval. "Mas ele é mais conhecido hoje do que quando era vivo", diz Cristina Buarque. Ela afirma que essa constatação se explica pelo culto atual ao samba mais antigo. "A mocidade hoje gosta de pesquisar e troca muitas músicas, sem contar que nas rodas de samba sempre toca alguma composição do Mauro", ela diz.  Cristina Buarque conheceu o Bolacha em 1968 no Clube do Samba, no Méier (sua primeira sede). "O que poucos sabem é que ele era boêmio e alegre, mas cuidadoso e trabalhador." Com ele, gravou o elepê Cristina Buarque e Mauro Duarte (1985). E lamenta o fato de ele ter morrido quando se aventurava como cantor - "cantava muito bem". Além de bancário, Mauro Duarte foi ourives. Nas duas profissões trabalhou com coisas de valor, mas o que ele soube valorizar foi mesmo a riqueza única do samba.

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