Crise chega ao festival e obriga organização a repensar estratégias

Crise chega ao festival e obriga organização a repensar estratégias

O Lollapalooza é vital para o redesenho de um novo modelo de show biz, mas pode morrer de um mal chamado ambição

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

29 Março 2015 | 15h46

Mesmo antes da divulgação oficial da quantidade de público pagante neste domingo, 29, a sensação é de que há menos pessoas do que nas edições anteriores. O espaço gigantesco do Autódromo de Interlagos, que nem foi usado em sua totalidade, amplifica o que pode ser entendido como desgaste. 

 

O Lollapalooza se equilibra em duas frentes. A primeira é a do festival indie cumprindo sua função de colocar em palcos grandes grupos que ele localiza. É o empurrão na pista de decolagem que ótimas bandas tiveram nesta edição, como a brasiliense Scalene, o carioca Baleia e a potiguar Far From Alaska. Nenhum festival com as mesmas dimensões faz o mesmo. Por isso, ele não pode acabar. 

Ao mesmo tempo,  precisa de dinheiro e, assim, 'vende' cada um dos seus quatro palcos para grandes empresas que precisam de retorno comercial. Um festival nascido para ser indie (de independente) consegue assim equilibrar as contas colocando nos mesmos palcos os chamados headliners, Robert Plant, Jack White e Pharrell Williams. E por um milagre que os deuses do rock proporcionam,  não há colisão de interesses. É possível manter a dignidade montando palcos com bandas de rock reclusas ao lado de dinossauros. Se tiverem verdade no que fazem, até os patrocinadores mais canibais sairão dançando. 

O Lollapalooza consegue montar bem este tabuleiro. Em dois dias não se ouviu vaias e a média de performance nos palcos foi de média para excelente. O calcanhar de Aquiles,  no entanto, está nas receitas que a produção arrecada dos serviços. Estas precisam ser repensadas antes que o tiro da ambição atinja o próprio pé dos organizadores. 

A entrada é cara, e pode explicar parte do desânimo dos fãs. De 80 mil pessoas esperadas, compareceram no sábado, 28, apenas 66 mil. No domingo, 29, cambistas vendiam entradas a preços menores do que os da bilheteria. 

O showbiz não vive em uma bolha anticrise. A festa que durou desde meados dos anos 2000, com uma proliferação de shows lotados por ingressos médios a R$900, como foi com Bob Dylan, não é mais viável. E apostar que o fã paga até um dente da frente para estar diante de seu ídolo é uma falácia.  Por mais seguidores genuínos de Robert Plant que estavam no sábado,  era visível que muitos ali nada sabiam de Led Zeppelin. Muitos dos verdadeiros haviam sido afugentados pelos preços. 

O valor das bebidas e comidas está fora da realidade. Enquanto andavam de um palco a outro,  jovens lamentavam terem gastado toda a reserva de dinheiro que levaram com apenas duas cervejas (a R$10 cada).

O mercado da música está sendo redesenhado também graças aos festivais independentes. As novas plateias, formadas por gente do Pais inteiro nas redes sociais,  se materializam nestes eventos pela primeira vez. Foi o caso, de novo, do que se viu nos shows do Scalene e do Far From Alaska. É por prestar serviços públicos tão valiosos que o Lolla deve seguir, sem tirar o pé do chão. 

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