Felipe Panfili/Divulgação
Felipe Panfili/Divulgação

Criolo e Hebert Lucena são os grandes vencedores do Prêmio de Música Brasileira

Consagrados e desconhecidos, 35 artistas saem com troféus de cerimônia no Municipal do Rio

Roberta Pennafort - O Estado de S.Paulo,

14 de junho de 2012 | 16h27

RIO - O rap paulistano e o coco pernambucano brilharam na cerimônia do democrático Prêmio de Música Brasileira, ontem, no Teatro Municipal do Rio. Criolo, sensação de 2011, e o desconhecido Herbert Lucena receberam cada um três troféus, de melhor CD e melhor cantor - o primeiro, na abrangente categoria pop/rock/reggae/hip hop/funk; o segundo, na regional. Criolo ganhou também como revelação e Lucena, pelo projeto visual de seu CD.

“Obrigado, rap nacional. Devo tudo isso a você!”, agradeceu o rapper no Twitter depois da festa. “Fiquei doidinho, muito feliz. A gente manda o disco e espera entrar em alguma categoria. As indicações já foram uma surpresa. Isso dá visibilidade maior ao meu trabalho, vou ter mais espaço”, vibrou o esperançoso Lucena, que bancou a gravação e contou com a ajuda de músicos amigos.

Dois artistas em seu segundo CD, duas realidades distintas: com uma legião de seguidores em todo o País, Criolo, avalizado até pela MPB, inicia turnê internacional pela Europa e pelos Estados Unidos; Lucena tenta tornar o coco, o gênero tradicional confinado a Pernambuco, conhecido nacionalmente.

Em sua 23.ª edição, o prêmio sempre teve caráter diverso. Só nele um artista de grande prestígio, mas pouca repercussão, como Dori Caymmi, é consagrado com dois troféus: melhor CD, Poesia Musicada, e melhor cantor.

Quem também venceu em dose dupla foi Alcione, melhor cantora e melhor CD na categoria canção popular, que abarca sertanejo, brega e artistas mais vinculados ao passado, como Cauby Peixoto (escolhido melhor cantor, e, aos 81 anos, saudado pela plateia de pé).

“Ganhar esses prêmios é muito importante para o meu trabalho. Perdi como arranjador e ganhei como cantor, é algo novo para mim”, disse Dori, que mora em Los Angeles, mas está no Rio há três meses por conta do CD.

Na cidade só para a cerimônia, Dom Salvador, lendário pianista de 73 anos que fez fama na bossa nova e há 40 anos também se radicou nos Estados Unidos, era outro nas nuvens com o seu troféu. “Depois de tantos anos fora do Brasil! Nunca vou esquecer esta noite.”

Outros vencedores denotam a abrangência do prêmio: Gilson Peranzzetta (melhor arranjador), Chitãozinho & Xororó (dupla de canção popular) e Hamilton de Holanda (solista na categoria instrumental).

A estrela da noite foi João Bosco, o “mineiro mais carioca da música brasileira”, homenageado do ano, e sua obra de quatro décadas. Suas músicas mais emblemáticas foram cantadas por um time eclético. Milton Nascimento abriu o palco com uma emocionada Agnus Sei, dos primórdios da carreira de João, impregnada do espírito mineiro.

Zeca Pagodinho e Gaby Amarantos fizeram um medley de Coisa Feita e Incompatibilidade de Gênios, com direito a selinho ao fim. Ivete Sangalo foi de Corsário; Alcione deu nova cara a Quando o Amor Acontece; Mônica Salmaso e Renato Braz dividiram a recente Sinhá, parceria com Chico Buarque que logo em seguida seria premiada como canção do ano.

O maior sucesso foi o próprio João quem cantou, ao violão magistral: Papel Machê, acompanhada pela plateia do Municipal, O Mestre-Salas dos Mares, Desenho de Giz.

Emoção. De terno, boné e tênis nas cores do seu time, o Flamengo, o compositor fez um discurso breve e simples. “Agradeço aos amigos do passado e aos contemporâneos que me ensinam até hoje. Aos parceiros, desde Vinicius de Moraes, até os que eu ainda não conheço, e principalmente a meu parceiro de fé Aldir Blanc”, disse, enfático. “Essa é uma homenagem à música brasileira, aos compositores, é assim que entendo. Aos grandes compositores que nos deixam esse legado, para continuarmos com a música, sorrindo.”

Foi um dos momentos tocantes da cerimônia, ágil, mas um tanto engessada este ano - a dupla de apresentadoras, a atriz Luana Piovani e a cantora Zélia Duncan, apesar de correta, não tem o jogo de cintura e a graça natural de antecessores como Fernanda Torres, Débora Bloch e Lázaro Ramos.

Lido por José Wilker, o texto de Aldir Blanc, amigo de João desde 1970, entre idas e vindas, também emocionou. Para o letrista, as músicas “que pediam palavras” com que se deparou tinham “o uivo barroco da solidão de Ouro Preto, cidade onde João estudava engenharia e compunha, em silêncio, uma revolução musical”.

“(Desde o início) já éramos, por temperamento e destino, uma parceria indissolúvel”, pontuou. “João é um forte. Sofreu incompreensões e até maldades difíceis de suportar, a menos que o artista tenha um objetivo implacável. Estivemos afastados 20 minutos, 20 séculos - e esse tempo foi igual a observar as mesmas estrelas de navios diferentes, sentindo a água e o vento que nos reuniria. Se hoje, paradoxalmente, as dificuldades são maiores, também fomos claros sobre isso: ‘Glória a todas as lutas inglórias!’ E quando tentarem, mais uma vez, o aliciamento de má-fé para ‘facilitar’, lembraremos que, atrás dessas propostas aparentemente generosas, está a ponta dos aríetes, e responderemos, como há 40 anos atrás: não!”

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