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Criolo é destaque no Back 2 Black; show teve participação de Mulatu Astatke

Festival traçou panorama da música afro-brasileira contemporânea com medalhões e estreantes

Roberto Nascimento - O Estado de S. Paulo,

02 de julho de 2012 | 13h03

LONDRES - Mulatus e Criolos, entre outros de pele preta, reverenciaram a África musical e sua diáspora brasileira em shows no Old Billingsgate Market, de Londres, durante o festival Back 2 Black, no último fim de semana. Hip hop, samba e funk carioca estavam no cardápio, e traçaram um fiel panorama da música afro-brasileira contemporânea, com artistas de destaque em fronts variados, que se apresentaram à margem do rio Tâmisa, sob um raro bom tempo londrino, em um antigo mercado de peixe para uma plateia de brasileiros e europeus.

Tocando juntos, Mulatu Astatke, o mestre vibrafonista etíope, e Criolo, o incensado artesão de rimas do Grajaú - foram do jazz ao terreiro no show mais expressivo dos dois primeiros dias do festival (o Back 2 Black começou nesta sexta-feira, 29, e terminou neste domingo, 1º). Transitaram entre funk, samba de roda e afrobeat, impulsionados pela afiada banda do rapper paulistano, mas orientados pelo vibrafone etéreo de Mulatu. Empolgaram uma plateia de não mais que 500 pessoas com a teatralidade e presença de palco de Criolo.

Foi o destaque de um festival que tem, inevitavelmente, uma função diplomática para o Brasil, pois embora tenha presença de africanos, europeus e americanos, foi anunciado como um festival de música brasileira, com fotos de Gilberto Gil (que é curador e faz o show de encerramento) em muros e revistas locais. O line-up do Back 2 Black é uma espécie de seleção olímpica da música negra brasileira em 2012.

Deixando de lado os medalhões do festival (Gil e Jorge Ben Jor) e levando em conta que o hip hop é o gênero mais expressivo da MPB independente atual, há veteranos ainda em forma (Marcelo D2), jogadores já respeitados (Emicida e Renegado) e a estrela badalada do time (Criolo). Presenciá-los em um curto espaço de tempo, em shows fora do Brasil, feitos para uma plateia de brasileiros e estrangeiros revela algumas polaroides do nosso pop negro atual.

Nesta primeira edição internacional do Back 2 Black, foram, como sempre são em outros festivais, shows de muito suingue, tocados por exímias bandas de apoio que garantem o balançar dos quadris. Mas foram também shows limitados por esta estética de grooves perfeccionistas. Ao se presenciar shows de brasileiros como Marcelo D2 e Renegado, ou de americanos e britânicos como Macy Gray e Roots Manuva, respectivamente, escutaram-se técnica e balanço, mas em sequência, percebeu-se que não há nada além do cantor que diferencie uma banda de outra. Tocam como bandas de talk show. Sucedem beats enfadonhos, que dão a estes artistas internacionais e à grande maioria de artistas de hip hop brasileiro contemporâneo roupagens sonoras entediantes, por mais que - no caso dos brasileiros - as rimas sejam astutas, criativas e sagazmente desferidas, como se viu nos primeiros dias do Back 2 Black.

A música -de forma mais escancarada ao vivo, mas também em produções - tem uma preferência saudosista, não retrô, por referências de soul jazz setentista - algo que no hip hop americano se esgotou há tempos, nos anos 90, com grupos como A Tribe Called Quest e The Roots. Tendo em mente que falamos de música brasileira, trata-se de uma estética muito óbvia para ser recriada, e por mais que às vezes dialogue com o samba, como faz Marcelo D2, prende nossos rappers em águas tépidas, que readaptam detritos de um gênero internacional que, em 2012, tem outra cara.

Por este ângulo, não surpreende que Criolo seja tão louvado por crítica e público. Ao mesmo tempo que sua música bebe destas fontes estagnadas, ela incorpora elementos mais crus e vívidos de nossa cultura popular. Em seu show, sábado à noite, houve pontos de candomblé e cadências de samba de roda.

Em meio ao ritmo, sua postura teatral, como se fosse um mímico ou um ator de Butoh japonês, faz a diferença. Como sempre, cantou Não Existe Amor em SP com sensibilidade de soul man, e parou no breque para que a galera respondesse a famosa linha: "aqui, ninguém vai pro céu". Criolo é conservador, um bem-vindo representante de ignoradas tradições populares, mas sua esperada visibilidade internacional nos faz pensar: será que o novo craque de nossa música não poderia mais radical, como Neymar quando surgiu para o olhar público?

 

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