Cristina Grantao/Divulgação
Cristina Grantao/Divulgação

Criolo, Blind Boys of Alabama e Buika se destacam no Back2Black

Festival de cultura negra no Rio fez tributo à cantora e ativista sul-africana Miriam Makeba

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

18 de novembro de 2013 | 15h23

Após ter se destacado na versão londrina do Back2Black no ano passado, quando se apresentou com Mulatu Astatke, Criolo repetiu o feito na quinta edição do evento, entre sexta (15) e domingo (17), no complexo cultural Cidade das Artes, no Rio de Janeiro. Nos três dias do festival, ninguém juntou o público e fez a plateia cantar como ele. Na primeira noite, o rapper abriu o show com Duas de Cinco, lançada recentemente para download grátis em seu site (criolo.net) e em vinil (junto à faixa Cóccix-ência). Em seguida, cantou Subirusdoistiozin, primeiro coro da noite.

Durante a apresentação, que teve manifestações da plateia contra o governador Sérgio Cabral, Criolo fez menção à luta dos professores do Rio de Janeiro, reconhecendo que "a caminhada não é fácil". Entre as últimas canções, Bogotá também agitou o público, ganhando uma versão reforçada com ótimos metais e a luxuosa participação de Tony Allen, um dos pais do afroreggae, apresentado por Criolo como "lenda da música cósmica universal".

Os 3.800 presentes no primeiro dia do festival também puderam conferir o afrobeat de Femi Kuti, que, provando ter herdado a musicalidade do pai, Fela Kuti, fechou a programação. O músico estava acompanhado pela banda The Positive Force e três dançarinas (e também backing vocals) que mantiveram a animação do público. Na Grande Sala, teatro no andar superior da Cidade das Artes, Milton Nascimento emocionou a plateia com sucessos como a tocante Clube da Esquina Nº 2 e a sempre esperada Maria, Maria, com participação da jovem Julia Vargas, que emprestou seus tons graves à canção. 

A mesma Grande Sala foi palco para o destaque do segundo dia, com público de 3.100 pessoas. Com 30 minutos de atraso, The Blind Boys of Alabama fizeram seu primeiro show no País. O som potente, misto de blues e jazz, preencheu o teatro e inutilizou as cadeiras já que, na dançante "Look Where He Brought Me From", nem os vocalistas e nem o público se contiveram sentados. Nos últimos momentos do show, o Reverendo Jesse Jackson - que participara, mais cedo, de uma conversa com Gilberto Gil, mediada pelo escritor angolano José Eduardo Agualusa - foi ao palco para acompanhar a apresentação.

Primeira atração internacional do dia, Mayra Andrade entrou com 40 minutos de atraso para mostrar o show de seu álbum recém-lançado Lovely Difficult. Em uma apresentação estável, cantou nove músicas do novo repertório, um pouco mais distante da música de Cabo Verde e mais próximo do pop internacional. "Neste novo disco, optei por cantar o que eu quisesse, independentemente da origem ou da lingua. Eu estava precisando me emancipar dos códigos da world music. Queria a simplicidade e a universalidade da música pop", disse ao Estado. Outras quatro músicas de outros álbuns integraram a set list, como Tunuka e Lua.

Marcado para as 22h30, o tributo à cantora e ativista Miriam Makeba começou à meia-noite. Um vídeo projetado no palco deu início à homenagem, contando a história da mulher que ficou conhecida como Mama África. Com 30 canções, o show - que teve participação da neta de Miriam, Zenzi Makeba - foi morno até a chegada de Gilberto Gil, que interpretou Oração pela Libertação da África do Sul e Manhã de Carnaval. Ismaël Lô e Alcione vieram depois, mantendo o público aquecido para o fim da apresentação: a já esperada Pata, Pata, que reuniu todos os artistas no palco.

Atraso. O terceiro dia do festival foi marcado por atrasos. No palco Estrombo, com atrações secundárias, Maíra Freitas (filha de Martinho da Vila e irmã de Mart’nália) começou às 19h o show que deveria ter iniciado às 18h. Sua irmã entrou no palco da Grande Sala com 90 minutos de atraso e a equipe levou outros 20 minutos para fazer os acertos de som. Mart’nália fez uma homenagem a Vinicius de Moraes, "o branco mais preto do Brasil", abrindo a apresentação com um medley das músicas mais conhecidas do poeta e diplomata. Curto, o show teve apenas mais oito músicas.

Segundo a organizadora do evento, Connie Lopes, os atrasos se justificam por uma mudança em função da condição climática: a chuva e os ventos fortes poderiam ser um problema para o soulman Bobby Womack, que tem 69 anos e se curou de um câncer há pouco mais de um ano. Seu show foi transferido, na manhã de domingo (17), para a Grande Sala, onde o músico e sua banda tiveram de passar o som no início da tarde.

A mudança não afetou o show de Womack. Acompanhado de seus nove músicos e de suas três backing vocals, ele mostrou que sua ginga ultrapassa os limites de sua idade e, estreante no Brasil, comentou que esperou muitos anos para vir. Apesar de animada - principalmente quando as backings iam para frente do palco para mostrar a típica voz potente das cantoras negras americanas -, a apresentação não segurou o calor do público em todos os momentos.

A surpresa da noite veio pouco antes de Womack: era Concha Buika. Simples, entre seu pianista e seu percussionista, ela entrou com um sorriso no rosto, fez o sinal da cruz e soltou sua voz firme e rouca, com controle absoluto dos vocalizes. Antes de começar a segunda música, Buika se disse emocionada e foi aplaudida de pé. "Não sou valente para falar, mas sou muito valente para cantar", disse em outro momento, explicando as poucas palavras ditas à plateia. Não era necessário. Todos estavam extasiados com a performance da africana da Guiné Equatorial radicada na Espanha.

O festival foi encerrado com um tributo a James Brown com a participação de Pee Wee Ellis, Black Rio, Arthur Maia, Negra Li e Ed Motta. Alguns dos artistas que passaram pelo Back2Black no Rio também fazem show em São Paulo. É o caso do rapper congolês Baloji, que se apresenta no Sesc Vila Mariana na 4ª (20) e na 5ª (21), e de Buika, que canta no Tom Jazz na 3ª (19) e na 4ª (20).

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