Criadora do Free Jazz não descarta fim do festival

O Free Jazz Festival pode ter seu nome vinculado a figura de duas pessoas: Monique e Sylvia Gardenberg, as irmãs que no início dos anos 80 criaram a Dueto Promoções e desenvolveram junto a Souza Cruz o projeto do festival. De sua criação para cá, 15 anos se passaram, muita coisa aconteceu. O evento passou a ser o terceiro do gênero no mundo, grandes nomes da música mundial tocaram no País, como Björk, Kraftwerk, Philip Glass, Sonic Youth, Femi Kuti, Goldie, Jeff Beck, Chuck Berry, Little Richard entre outros. Sylvia faleceu há dois anos. Um grande baque para Monique. Ela continua segurando as rédeas do evento e fazendo com que ano após ano ele cresça em importância. A edição 2000 terminou ontem, batendo recorde de público ? cerca de 26 mil pessoas estiveram no Jockey Club, em São Paulo, nos últimos três dias. Fato que deixa Monique radiante. No entanto, um projeto de lei do Ministro da Saúde, José Serra, assíduo frequentador dos camarins do festival em anos anteriores, segundo Monique, pode dar cabo do evento. Em entrevista exclusiva concedida na tarde de hoje, por e-mail, ao Estadao.com.br, Monique respondeu sobre o possível término do festival e o resultado desta edição, entre outros assuntos. Estadão.com.br - A eminência de as marcas de cigarro serem proibidas de patrocinar eventos culturais e esportivos pode dar cabo do Free Jazz? Existem empresas que já manifestaram interesse em dar continuidade ao evento?Monique Gardenberg - Caso a lei proposta pelo ministro José Serra passe no Congresso, o Free Jazz tem muita chance de acabar sim. Acho um absurdo, mais pela brutalidade e pelo exagero em si, do que pelas consequências que isto possa ter na minha vida pessoal. Eu sempre fiquei no Free Jazz em São Paulo, com exceção deste ano. Me lembro que durante vários anos eu subia nos camarotes do Palace e sempre o José Serra aparecia, ele e o Jô Soares eram frequentadores assíduos. Porque esta radicalidade? Sou contra qualquer tipo de proibição. Acho as medidas propostas de uma radicalidade que não combina com o Brasil. O Brasil não é a Escandinávia, tem outros problemas mais graves que merecem esta atenção concentrada. As medidas são mais radicais que aquelas já super rígidas dos americanos. A Philip Morris patrocina os principais eventos e centros culturais dos Estados Unidos, inclusive o festival Next Wave, da Brooklin Academy of Music - o meu maior centro de pesquisa e aprendizado nos anos 80. O Free Jazz, como nada no Brasil, conseguiu se manter durante quinze anos no cenário cultural do País. Já faz parte das nossas vidas. Foram quinze anos de atividade super produtiva. Será que não poderia haver o usucapião para a cultura?De todo modo, se a lei for aprovada, vou parar para pensar na vida. Foram dezoito anos de um casamento feliz com a Souza Cruz e não se trata de mudar de marido e pronto, tá tudo resolvido. Me relaciono com a Souza Cruz por quase a metade do tempo da minha existência. Relações humanas estão em jogo, e são elas que fazem a vida valer a pena. Esta foi a química que deu certo.O evento bateu recorde de público e faturamento em São Paulo, a despeito do direcionamento do evento que privilegiou artistas em busca de um lugar ao sol e não nomes consagrados. Era isso que você esperava?Quando nós decidimos nos libertar do compromisso de trazer nomes de grande projeção e sucesso comercial, sabíamos que estávamos correndo um risco. Porém, também acreditávamos na força do evento, no fato das pessoas muitas vezes irem ao Free Jazz pelo Free Jazz, por sua longa história de qualidade. E deu certo, o público ficou curioso e compareceu. Mas além disso tudo, acho que este ano houve uma explosão do sucesso, uma descoberta do evento por pessoas que não eram frequentadores assíduos do festival.Está mais do que clara a importância do Free Jazz como evento fomentador de cultura. Todos os anos ele acaba funcionando com um catalizador de tendências e rumos da música contemporânea. Já está enraizado no cenário cultural do Rio e de São Paulo.Fico contente com o seu comentário pois é assim mesmo que a gente se sente quando fazemos a programação. Ficamos meses quebrando a cabeça. Existe em todos nós uma preocupação com a pesquisa, com uma inteligência musical por trás de tudo. Por isso o Free Jazz acaba sendo este catalizador das últimas tendências musicais mundiais. E o que mais possibilitou esta riqueza foi justamente o fato do festival ter se tornado, ano após ano, mais eclético, abrindo espaço para tudo aquilo que é bom, que tem qualidade e merece ser visto. O Free Jazz possibilitou a vinda ao Brasil de enormes talentos (Björk, Kraftwerk, Philip Glass, Sonic Youth, Femi Kuti, Goldie, Jeff Beck, Chuck Berry, Little Richard, etc) que com suas vendas mínimas jamais poderiam vir ao País.São 15 anos de Free Jazz, hoje considerado o terceiro maior evento do gênero no mundo. Eram essas as suas perspectivas quando assumiu o comando do Festival ou ele superou o que você esperava?Quando, em 1984, eu e minha irmã Sylvinha levamos esta idéia para a Souza Cruz com o terrível nome de "Festival Internacional FREE de Música Instrumental" não tínhamos a menor idéia do que estávamos criando. Ela tinha 23 e eu 24. No primeiro ano, tínhamos acessos de riso de nervoso diante da imensa encrenca que havíamos inventado. Encrenca boa, que nos deu muitas alegrias e orgulho. Mas o festival virou o que virou, desde o seu nome - Free Jazz -, até a sua grandiosidade graças à larga experiência da Souza Cruz em grandes promoções e ao talento da gente e de nossa curadoria (Zuza Homem de Mello, Paulinho Albuquerque, Zé Nogueira, Rafael Dragaud) para manter a qualidade e consistência artística durante tantos anos consecutivos.

Agencia Estado,

23 de outubro de 2000 | 20h16

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.