Mario Anzuoni/ Reuters
Mario Anzuoni/ Reuters

Crescem denúncias de plágio na música

O alto número de processos movimentou 2019 e se tornou perigosa a nova tendência de atrair mais estrelas pop aos tribunais

Jon Caramanica, NYT

30 de janeiro de 2020 | 18h48

O ano passado foi excepcionalmente movimentado para processos no mundo da música pop. Em agosto, depois de determinar que Dark Horse, de Katy Perry, uma canção de trap bastante comum, plagiara Joyful Noise, outra música trap muito comum do rapper cristão Flame, um júri concedeu ao cantor e seus coautores uma indenização de US$ 2,8 milhões (Katy Perry recorreu da decisão).

Em outubro, a banda emo Yellowcard, que acabou em 2017, processou o rapper Juice WRLD por danos que calculou em US$ 15 milhões por notar semelhanças entre um dos seus grandes sucessos, Lucid Dreams, e um dos seus outros não sucessos, Holly Wood Died. Depois da morte do rapper, em dezembro, a banda disse que seguiria com o recurso.

Em ambos os casos, a suposta ligação musical é, quando muito, frágil. Mas esses são os tipos de ações que encontraram oxigênio na esteira da sentença no caso de Blurred Lines, em 2015. Nela, o júri concedeu aos herdeiros de Marvin Gaye US$ 7,5 milhões (posteriormente reduzidos a US$ 5,3 milhões) depois de determinar que a música de Robin Thicke, Pharrell Williams e o rapper T.I. tinha muito em comum com Got to Give It Up de Gaye. Foi uma coisa absurda e também assustadora. Não só uma pessoa ser considerada responsável por plágio, intencional ou não, como agora pode ser tida como responsável por ser influenciada também.



É uma péssima notícia para os astros da música pop, e para os produtores e compositores que os ajudam a criar sucessos. Hoje, esses casos constituem marcos em litígios baseados em alegações nebulosas, bem como na ignorância total ou voluntária de como é feita hoje a música pop. Nela, as ideias raramente surgem do isolamento completo. Toda música se beneficia do que a antecedeu, quer seja uma ideia melódica, um ritmo, a textura de uma percussão.

Uma disputa de direitos autorais explora essa situação, transformando uma influência inevitável em litígio. Nesse caso, não se faz uma distinção entre roubo e influência. O que resta daqui para frente é um clima de medo. Em alguns casos mais recentes, há uma sensação de ação preventiva, como quando Taylor Swift deu um crédito de autoria à banda inglesa Right Said Fred por uma cadência em Look What You Made Me Do que lembrava I’m Too Sexy.

Ou o acordo rapidamente concluído por Sam Smith com Tom Petty por aparentes semelhanças entre Stay With Me e I Won’t Back Down. O cantor-compositor Steve Ronsen sugeriu que um trecho de Shallow, o sucesso de Lady Gaga e Bradley Cooper no filme Nasce Uma Estrela derivava em parte de uma da suas canções, Almost, e ameaçou entrar com uma ação judicial.

O The Weeknd foi processado por três compositores, Brian Clover, Scott McCulloch e William Smith, segundo os quais a música A Lonely Night era uma cópia ruim de uma canção que não chegou a ser lançada, intitulada I Need Love, que eles haviam escrito mais de dez anos antes. Ed Sheeran foi alvo de vários processos; a acusação de violação devido a um plágio ostensivo em Shape of You, de autoria de um cantor chamado Sam Chokri, fez com que os pagamentos de royalties por aquela música fossem congelados.

A suposta inspiração do sucesso de Lizzo, Truth Hearts, foi extraída de um tuíte, e permaneceu sem crédito até que dois compositores que trabalharam com Lizzo em uma sessão na qual usaram a letra fatídica, reivindicaram publicamente o crédito. Lizzo respondeu anunciando estar movendo uma ação em que exigia que a acusação dos dois fosse declarada inválida, e estendia o crédito da composição ao autor do tuíte.

O sucesso de Ariana Grande de 2017, 7 Rings, foi alvo de várias ações judiciais quanto à sua originalidade, particularmente vindas dos rapper 2Chainz e Soulja Boy. Ariana já cedeu 90% dos seus royalties à Rodgers & Hammerstein Organization (por ter usado um trecho da canção My Favorite Things de A Noviça Rebelde). Mas depois de uma reunião com 2Chainz, ambos concordaram em colaborar em algumas canções.

Este ano, um telefonema solucionou uma reclamação do grupo Three 6 Mafia contra Travis Scott. Mas nem sempre as coisas são resolvidas com tanta facilidade. Em 2014, Drake revisitou letras do rapper de 51 anos Rappin’4-Tay, que optou por cobrar publicamente US$ 100 mil (que Drake não pagou.)

No fim do ano passado, Williams, produtor de Blurred Lines, deu uma entrevista em que descreveu a sua participação na canção de maneira diferente da que fizera em um primeiro depoimento sob juramento. Semanas mais tarde, o espólio de Gaye apresentou um recurso acusando-o de perjúrio e pedindo ao juiz uma revisão da decisão. Nem mesmo US$ 5,3 milhões compram a moderação. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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