Eduardo Nicolau/Estadão
Eduardo Nicolau/Estadão

Cravo Albin sobre João Gilberto: 'Não me venham dizer que é jazz'

Velório do inventor da bossa nova foi marcado pelas declarações de personalidades como Adriana Calcanhotto, Ricardo Cravo Albim e Teresa Cristina

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2019 | 18h43

RIO - O enterro de João Gilberto encerrou simbolicamente uma ideia de Brasil que ficou definitivamente para trás. A metáfora usada por tantos colunistas para tentar dar a dimensão da importância do músico para a criação de um ideal de país moderno e cosmopolita foi repetida nesta segunda-feira, 8, por amigos que foram se despedir do cantor, no velório e no enterro.

“João foi uma pessoa muito importante para o Brasil”, afirmou a cantora Teresa Cristina, que esteve no Theatro Municipal, onde o corpo do músico foi velado das 9h às 14h. “Num ano tão pesado, tão difícil para o Brasil, é muito emblemático perdermos um gênio, que trouxe tanta beleza e tanta clareza para o país, que é justamente o contrário do que estamos vivendo hoje.”

A cantora Adriana Calcanhoto, que gravou Bim Bom (de João Gilberto, Tom Jobim e Herbie Mann), também esteve no Theatro Municipal pela manhã. Visivelmente emocionada, ela afirmou que tinha muito a agradecer ao músico por sua música, pela síntese que fez do samba na batida do violão, mas, sobretudo, pela forma como encarou o mundo.

“João fez uma coisa muito bonita e muito profunda”, disse a cantora. “Não só pela música, mas por toda a arte, pelo país, pelo mundo. Ele influenciou tanta gente que nem sabe que foi influenciada por ele. Temos que nos espelhar nisso. Ele representa um Brasil muito grande, muito importante; é o Brasil no que existe de melhor.”

Para o crítico e pesquisador de música Ricardo Cravo Albim, João Gilberto representou um ideal de país no mundo ao criar um gênero novo e inteiramente brasileiro de música, no fim da década de 50, quando o país se sobressaiu no cenário mundial também pela arquitetura e literatura. 

“A bossa nova que ele criou é o gênero mais autêntico do Brasil”, disse o especialista. “E não me venham dizer que é jazz, ou isso ou aquilo; a bossa nova é a criação de João Gilberto pela voz e pelo violão.”

O velório, no saguão do Theatro Municipal, foi inicialmente fechado, apenas para parentes e amigos. Ás 10h foi aberto para o público. Ao redor do caixão, estavam coroas de flores em homenagem ao músico. Entre elas, uma enviada pela família de Tom Jobim e outra pela cantora Rita Lee.

A última companheira de João Gilberto, Maria do Céu Harris, foi uma das primeiras a chegar e manteve-se durante todo o tempo ao lado do caixão. A ex-mulher Cláudia Faissol e a filha mais nova do cantor, Luísa, também estiveram no velório. Filha do músico com a cantora Miúcha, Bebel Gilberto chegou pouco antes do meio-dia. João Marcelo, filho mais velho de João Gilberto, não veio para a cerimônia. Ficou nos Estados Unidos, onde vive. 

Entre outros músicos e artistas presentes, estiveram no velório, Jards Macalé, Vanessa da Matta, Paula Lavigne, Marieta Severo, Gloria Pires e Julia Lemertz. 

Uma missa católica foi conduzida por Padre Omar, que convidou as filhas do músico, Bebel e Luísa, para a despedida.

“Que a gente possa continuar cantando, tocando, espalhando as músicas e celebrando a vida do meu pai”, disse Bebel Gilberto, chorando muito.

Depois de uma missa realizada no saguão do Theatro Municipal, o velório foi encerrado por músicos e cantores do teatro, além de todos os participantes, cantando Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinícius de Morais, faixa título do primeiro LP de João Gilberto, lançado em 1959. 

Do lado de fora do teatro, músicos amadores tocavam as músicas que marcaram a carreira de João Gilberto, como a própria Chega de Saudade e Garota de Ipanema.

O enterro foi no cemitério Parque da Colina, em Niteroi, na região metropolitana, no jazigo da família.

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