Courtney Pine traz seu jazz híbrido a São Paulo

Aos 38 anos e carregando desde os anos 80 o título de o mais destacado jazzista da cena inglesa, Courtney Pine é o músico que abre na quarta-feira, às 22h30, a série Diners Jazz, do Bourbon Street Music Club, em São Paulo. Um iconoclasta do gênero, antítese européia ao classicismo militante dos chamados young lions americanos, Pine - que toca sax tenor, alto e soprano e também clarineta, flauta e teclados - balança o legado de John Coltrane com sua aproximação do jazz com ritmos "pagãos", como o hip-hop, o reggae e o drum´n´bass das pistas de dança. Modelo para jovens músicos negros, por seu engajamento e liderança, ele foi um dos convidados do célebre concerto dos 80 anos de Nelson Mandela, em Wembley. Fez três discos com produção de Delfeayo Marsalis, no fim dos anos 80, e poderia ter sucumbido à tentação de fechar-se no cofre do virtuosismo. Mas não. Nos anos 90, expandiu sua área de influência. Primeiro, gravou Closer to Home, uma coleção de clássicos do reggae, gravado na Jamaica com a produção do celebrado Gussie Clarke. Foi convidado do álbum Wandering Spirit, de Mick Jagger, e participou dos álbuns do Jazzmatazz de Guru. Abriu shows de Elton John e Ray Cooper, tocou no The Royal Albert Hall e teve como parceiros, nos últimos dez anos, gente como o percussionista hindo-britânico Talvin Singh, a pianista Geri Allen e a cantora Cassandra Wilson.Convidado do famoso programa de Jools Holland como embaixador do jazz inglês, ele divide opiniões. Recente resenha na revista Mojo aponta sua música como "entretenimento", principalmente pelo flerte aberto com astros do pop. Pine chega a bordo de um disco novo, Back in the Day (Blue Thumb, 2001) e diz que vem disposto a fazer uma pesquisa musical no Brasil, procurando elementos para o novo trabalho. "Meu próximo disco poderia ser uma mistura de música brasileira com jazz e drum´n´bass", ele conta. "Espero que me levem sugestões e me mostrem algo da música brasileira para me ajudar." Agência Estado - Basicamente, o que mudou de seu primeiro disco, Journey to the Urge Within (1986) para esse novo, Back in the Day (Blue Thumb, 2001)?Courtney Pine - Bem, naquela época eu tocava com Elvin Jones e Ellis Marsalis e estava muito interessado em John Coltrane. Comecei a tocar jazz com um ponto de vista acústico. Hoje, estou voltado para o drum´n´bass e o reggae, que é algo muito próximo da minha formação (os pais do saxofonista são da Jamaica). Tive a experiência de fazer um disco de reggae (Closer to Home) e acho que é o tipo de música que mantém uma conexão funda com as raízes e é plena de sentido. Você se define mais como um jazzista, de toda maneira. Qual é a sua definição de sua própria música?Minha definição pessoal é que gosto de fazer uma música que me divirta. Não estou interessado na tradição de Louis Armstrong, mas no som real das ruas, da minha geração. Quero fazer uma música que esteja presente no mundo em que vivemos atualmente, não a que pareça fechada numa bolha idealizada do passado. Mas um músico nunca define o que é como músico. Miles Davis e Charlie Parker faziam sua música com um interesse diferente daquele de fazer algo de limites bem definidos. Eu ainda estou aprendendo, não sei exatamente para onde estou indo, mas sei que vou continuar seguindo.Você provavelmente terá encontros com músicos aqui no Brasil. O que costuma dizer para seus colegas que atuam no Terceiro Mundo?No Terceiro Mundo? Como eu? Para mim, como um músico do Terceiro Mundo, o que posso dizer é: seja você mesmo, toque a música que o inspira, que possa comunicar que todo o mundo é livre. Essa é minha dica. O jazz é uma linguagem livre. Você gosta de hip-hop também. Como vê a atuação de rappers como Eminem, que são acusados de racismo?Eu gosto do som de Eminem. Penso que tem um bom espírito musical, boas idéias, embora seja um sujeito meio egoísta. Amo a capacidade que o hip-hop tem de comunicar diretamente, sem meias-verdades, de falar direto ao público. E o drum´n´bass? Você já tocou com Goldie, um dos papas do drum´n´bass?Ainda não, mas outro dia conversamos e temos planos de fazer algo juntos. Goldie tem uma energia impressionante, é um DJ muito conhecido e de grande público na Inglaterra. E quanto ao Napster e essas novas tecnologias de trocas musicais na Internet? Você apóia?Gosto de tudo isso. Sendo um músico do Reino Unido, é importante ter um sistema que faz a música da gente correr o mundo, que faz com que meu disco possa ser ouvido no Brasil, nos Estados Unidos, onde quer que haja alguém que queira ouvi-lo. Isso é inquestionavelmente algo bom. Do que você lembra da última vez que esteve aqui?Lembro-me que foi em 1989, eu acho, durante o Free Jazz Festival. Lembro-me bem do público, muito caloroso. Lembro-me do show dos Yellowjackets e de Leo Gandelman e seu saxofone suave. Quais os planos para esse show aqui? Como são os integrantes da sua banda?Nós tocamos reggae, hip-hop e jazz. Eles são como eu, músicos de jazz que têm um leque de interesses muito amplos, que estão abertos para toda forma artística nova e para desafios novos. Quero chegar ao Brasil e pesquisar música para meu próximo álbum. Quero misturar jazz com música brasileira e drum´n´bass e espero que me ajudem a conhecer as novas manifestações da música brasileira, que me apresentem novos sons.Há um poema de Langston Hughes no disco Modern Day Jazz Stories. Nina Simone, quando esteve aqui, também fez com que lessem um poema de Hughes para a platéia, antes de seu show. Como você chegou a esse poeta?O poema é The Negro Speaks of Rivers. Originalmente, eu o li em um álbum de Gary Bartz dos anos 70. Hughes é uma voz forte da consciência negra, deve ser sempre lembrado, lido e entendido. Courtney Pine - Quarta-feira, às 22h30. Couvert artístico de R$ 55,00 a R$ 95,00. Bourbon Street Music Club (Rua dos Chanés, 127, tel. 5561-1643); Patrocínio: Diners Club International

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