Katrin Koenning|NYT
Katrin Koenning|NYT

Courtney Barnett encontra o sucesso por ser exatamente ela mesma

Artista australiana se apresenta em São Paulo no dia 16 de novembro

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

06 Julho 2016 | 04h00

Aonde quer que vá, Courtney Barnett leva seu diário consigo. “É o que as pessoas normalmente fazem, não?”, questiona ela durante a entrevista ao Estado realizada ontem, momentos antes de seguir para a passagem de som que antecederia a apresentação em Amsterdam, na Holanda, no fim daquele dia. Não é tão comum. Assim como muitas outras características da australiana de Melbourne, a rotina de preencher as páginas em branco com recortes da vida cotidiana, desenhos, versos e poesias, coloca-a na tênue linha entre o comum e o incomum. Das grandes revelações da música alternativa dos últimos anos, a jovem de 28 anos tem ambos. É daquelas tantas outras garotas – e garotos – que conhecemos ao longo da vida, com suas angústias e receios da transição da adolescência para a vida adulta, como grande parte da geração daqueles nascidos nos anos 1980. O extraordinário em Courtney é como ela é capaz de transportar tudo isso para uma carreira musical em ascensão. 

Em vias de interromper a turnê exaustiva de até o momento 312 shows iniciada em 2014, um ano antes de que o disco de estreia, o imprescindível Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit, chegasse às lojas, Courtney ainda tenta se acostumar com a vida na estrada. Vida itinerante, aliás, que a trará ao Brasil pela primeira vez, após dois meses de férias. Ela virá para shows em São Paulo e Rio de Janeiro, dias 16 e 17 de novembro, respectivamente. A apresentação paulistana integra o calendário do já estabelecido Popload Gig. Nas duas noites, a banda norte-americana Edward Sharpe and The Magnetic Zeros também se apresentará.

São as frequentes caminhadas, as visitas a museus e galerias de arte, e o diário sempre à mão que a mantém dentro da normalidade da qual ela vivia até estourar com a música Avant Gardener, presente no segundo EP da moça, de How to Carve a Carrot into a Rose. Estouro no universo indie, é claro, mas o suficiente para colocar os holofotes na moça. De dona do “melhor single do ano” de 2013, de acordo com o site especializado em música Pitchfork, Courtney foi para o The New York Times pouco tempo depois para ser apresentada ao grande público e ganhou uma indicação ao Grammy, premiação pouco antenada com o fino do independente, como revelação. 

Ouça Avant Gardener:

Avant Gardener foi importante por funcionar como um ótimo cartão de visita sobre a música de Courtney. Uma jocosa e desengonçadamente graciosa história de uma garota com asma com dificuldades para respirar. Courtney não tem medo de tirar sarro de si e esse é seu segredo. Também não é uma cantora no sentido mais puro da palavra, é uma espécie de faladora. Despeja casos e historietas em um fluxo contínuo, sem grandes preocupações estéticas ou métricas. Courtney fala consigo enquanto canta, como se tentasse entender o mundo a seu redor e, ao mesmo tempo, brincasse com a guitarra para dar pitadas de distorção e doses leves de psicodelia. 

Desde os dez anos de idade, a ideia de fazer canções já estava implantada na cabeça de Courtney. A primeira apresentação foi aos 18 anos. “A música nunca foi tratada como uma opção, embora sempre fosse uma ideia que ficasse ali no fundo do cérebro”, ela explica. “É o que você ouve das pessoas, não é? ‘Você nunca será um músico bem-sucedido’.” Nada mais comum. A jovem pulou de emprego em emprego, de trabalhos em escritórios a noites servindo clientes em bares. Dessa vida antes da música, ela traz pouco consigo. “Nunca fui muito boa em me manter em contato com as pessoas”, admite – mais um ponto para a vertente normal da moça. 

Depois de experimentar caminhos de banda, com os grupos Rapid Transite Immigrant Union, de relativo sucesso na Austrália (principalmente o segundo), Courtney pegou dinheiro emprestado com a avó materna e abriu o próprio selo, Milk!, com o qual lançou os dois EPs responsáveis por espalharem as inquietações dela para o mundo. 

O disco para valer, Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit, já diz muito sobre o seu conteúdo pelo título: “Às vezes sento e penso, às vezes apenas sento”. São pequenos contos de quando se está com a cabeça cheia de problemas e indagações ou quando ela está completamente vazia. “Algumas canções desse disco levaram anos”, ela explica, citando Elevator Operator, a história desse sujeito cujo sonho é ser operador de elevador. “Outras”, continua, “escrevi em meia hora, bem rápido, como Nobody Really Cares If You Don’t Go to the Party.” 

Ela admite que esse conjunto mais recente de canções nasceram de momentos nos quais Courtney tentava lidar com os próprios problemas. “São coisas que atraem a minha atenção e me fazem pensar. De alguma forma, é uma espécie de conversa comigo mesma”, explica a cantora. A música A Illustration of Loniness (Sleepless In New York), por exemplo, é uma balada sobre uma noite insone e distante daquele que se ama. Nada mais comum. “São como aquelas conversas que temos conosco antes de levantar todas as manhãs, entende?”, ela diz. “Só que quando essas canções vão para os shows, as pessoas percebem que não são as únicas a se identificarem com esses temas. Elas entendem que não estão sozinhas”, ela completa. E isso é o que faz de Courtney Barnett incomum.

COURTNEY BARNETT

Popload Gig.

Audio. Av. Francisco Matarazzo, 694. 16 de nov., às 21h.

R$ 200 a R$ 400.

Edward Sharpe and the Magnetic Zeros às 22h30.

Ouça o disco Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit: 

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