Costello volta ao rock?n?roll em "The Delivery Man"

Desde 1993, quando gravou o ciclo de lieder do CD The Juliet Letters com o Brodsky Quartet, Elvis Costello toca duas ou três carreiras musicais paralelas. Uma desenvolve esse flerte com formas não roqueiras, expressão ampla o bastante para abarcar de parcerias pop com Burt Bacharach a duetos líricos com a meio-soprano Anne Sofie von Otter. A outra é o prosseguimento daquela iniciada junto - mas não colada - ao movimento punk, com a obra-prima My Aim Is True, de 1977. De quebra, Costello dá uma força à carreira da mulher, Diana Krall. No último álbum da cantora e pianista de jazz, The Girl in the Other Room, ele assina ou co-assina sete das 12 faixas. As melhores.Sujeito complexo esse inglês de Liverpool, nascido Declan Patrick McManus há 50 anos. Hoje, lança discos regularmente tanto pelo prestigioso selo clássico Deutsche Grammophon (o mais recente é a ópera Il Sogno) quanto por selos de música popular (saiu do Island e agora grava pelo Lost Highway). Todos os três são representados no Brasil pela mesma Universal Music. É ela quem acaba de lançar mais um digno representante da vertente roqueira da personalidade de Costello: The Delivery Man. São 13 faixas americanizadas como não se ouvia na sua obra desde King of America, de 1986. Tem até Lucinda Williams e Emmylou Harris fazendo vocais de apoio de sabor caipira.The Delivery Man não chega a ser exatamente um álbum conceitual, daqueles em que cada faixa está interligada às outras, mas tem por trás de si um conceito: há quase 20 anos, Costello leu num jornal a história de um homem que tinha assassinado um amigo na sua infância e escondera o crime mesmo tendo sido preso por vários outros. Baseado nela, escreveu uma canção para Johnny Cash, Hidden Shame. Costello, porém, não se livrou do sujeito e imaginou-o chamado Abel, chegando a uma cidade pequena e exercendo diferentes tipos de fascínio sobre três mulheres: uma divorciada metida a avançada (Vivian), uma recatada viúva de guerra (Geraldine) e sua filha (Ivy).É por isso que, na faixa-título, uma das melhores do disco, Abel é comparado ora a Elvis Presley (o amor carnal de Vivian) ora a Jesus Cristo (o amor espiritual de Geraldine). No meio, queda-se Ivy. Não há, no entanto, necessidade de o ouvinte se apegar à historinha para curtir o CD. As canções relacionadas a The Delivery Man funcionam muito bem se tomada isoladamente, assim como as outras (Bedlam, Needle Time, Monkey to Man) que nada têm a ver com o misterioso personagem. Além de Lucinda e Emmylou, o guitarrista Costello conta com o apoio de outros dois excepcionais músicos, o tecladista Steve Nieve e o baterista Pete Thomas, companheiros desde sua lendária banda de apoio, The Attractions. Junto com o baixista Davey Faragher, eles hoje se chamam The Imposters.Nieve merece um parágrafo à parte. Sem nunca ter se proposto a ser um multitecladista pirotécnico, como, por exemplo, Rick Wakeman ou Keith Emerson (Lake & Palmer), ele há quase três décadas exibe habilidade e sensibilidade nos discos de Costello. Na verdade, Nieve está para ele assim como o falecido Ian Stewart estava para os Rolling Stones. O que seu piano e seu órgão Hammond fazem pela soberba The Judgement não tem preço. Enquanto o outro canta versos como ?O acusado se erguerá/ Para ser partido ao meio/ Culpado de nada exceto de te amar/ Este é o julgamento?, Nieve engrandece a música com seus sublinhados dramáticos. Grande parceria.The Judgement é uma das duas faixas de The Delivery Man que já haviam sido gravadas por outros intérpretes. No caso, pelo cantor de soul music Solomon Burke, no seu álbum Don?t Give up on me (2002), ganhador de um Grammy. A outra música não inédita é a sentida Either Side of the Same Town, interpretada por Howard Tate, outra lenda do soul, em seu Rediscovered (2003). A ênfase do CD de Costello, contudo, é no rock?n?roll, feroz em Button My Lip, irônico em The Name of this Thing Is not Love. Nesta, Costello mostra seu gênio poético: ?Há parte deste sentimento que simplesmente não posso matar/ Mas o nome desta coisa não é amor/ E eu não posso tomar uma poção, e eu não vou tomar uma pílula/ Então, ela ainda me tortura.? Brilhante. O nome disso é rock?n?roll. Costello prefere essa expressão a rock, que remete apenas a pedra, coisa sem vida. Para ele, a despeito de suas veleidades eruditas, a pedra tem de rolar.

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