Ana Cristina Leme/Estadão
Ana Cristina Leme/Estadão

Corpo de Belchior é enterrado sob aplausos, rosas e cantoria 

Cantor e compositor morreu neste sábado, 29, aos 70 anos 

Pedro Antunes , O Estado de S.Paulo

02 Maio 2017 | 10h53

FORTALEZA - Tinha choro, sim, mas também tinha riso. Havia lágrimas, havia canções. Antônio Carlos Belchior foi enterrado na manhã desta terça-feira sob aplausos, gritos de "viva Belchior!" e de suas músicas mais emblemáticas. Não poderia ser diferente. A dor da perda, a raiva da saudade e a alegria de rever o cantor e compositor de Sobral, interior do Ceará, após mais de uma década de auto-exílio, eram sentimentos difusos demais, tão complexos, para que as lágrimas fossem mantidas nos olhos. Escorriam livres.  

A sepultura de Belchior foi fechada pela manhã, às 9h49, cercada de quase uma centena de pessoas. Fãs, curiosos e imprensa circundavam os familiares e amigos próximos do músico. Os filhos da primeira esposa, Angela Henman, usavam óculos de lentes escuras para cobrir os olhos e seguravam, cada um, um pequeno buquê de rosas vermelhas. A atual esposa, Edna Prometeu, com quem Belchior morava no fim da vida, em Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, permaneceu sentada em uma cadeira de rodas e se mostrava abalada. 

Mikael e Camila Belchior, filhos do casamento do músico com Ângela, depositaram suas flores em cima do caixão do pai ao som de Sujeito de Sorte, música cantada à capela. Eles não cantaram e permaneceram em silêncio. "Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro", prometia Belchior na faixa de 1976, do disco Alucinação. 

Em poucos minutos, o sepultamento havia chegado ao fim. O corpo Belchior está enterrado ao lado dos pais dele, no setor G do cemitério Parque da Luz, localizado na zona sul de Fortaleza, a quem ele homenageou na música gravada por Elis Como Nossos País - outra cantada pelos presentes. Surpreendente foi escolha no repertório improvisado foi Mucuripe, uma das primeiras composições de Belchior, criada em parceria com Raimundo Fagner, também integrante do grupo de artistas cearenses dos anos 1970 conhecidos como "pessoal do Ceará". Mucuripe dá nome a uma praia e a um bairro de Fortaleza e, nas horas seguintes à morte de Belchior, ao longo do domingo, chegou a ser cogitado que ele seria velado lá. 

Enfim, Belchior descansou. Seu corpo viajou aproximadamente 4,6 mil quilômetros, saindo de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, onde ele morreu na noite de sábado, 29, em decorrência do rompimento da aorta, aos 70 anos. Seguiu em um avião particular  até Fortaleza, onde parou para abastecimento e se dirigiu a Sobral, município a 240 km da capital do estado, para o velório na cidade na qual Belchior nasceu e viveu até os 16 anos. 

Lá, foi velado na manhã de segunda-feira, até 11h30, quando o corpo foi encaminhado de volta para Fortaleza. Foi velado no saguão de entrada do teatro do Centro Cultural Dragão do Mar entre 15h de segunda, 1º, até às 7h do dia seguinte. De acordo com a organização do centro cultural, foram mais de 8 mil pessoas presente durante todo esse período. Uma missa de corpo presente, realizada na sequência, no anfiteatro do Dragão do Mar, na às 7h da terça, reuniu pouco mais de 100 pessoas, entre amigos, familiares e fãs. Ao final da ceromônia, uma banda improvisada formada por Ericsson Mendes, Maria Zenaide, Renato Campos Gutemberg Pereira, Eduardo Holanda e Mimi Rocha subiu ao palco para a homenagem. Executaram Na Hora do Almoço, Alucinação, Como Nossos Pais, Palo Seco, Sujeito de Sorte e Galos, Noites e Quintais. Belchior se foi. E, se no sábado, 29, ele morreu em silêncio, tão distante, ouvindo música clássica, seu corpo foi enterrado próximo dos seus. 

* O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DO FESTIVAL MALOCA DRAGÃO 



 

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