Última Hora, Arquivo Público do Estado de São Paulo
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‘Copacabana’, de Zuza Homem de Mello, narra como o samba-canção levou o País à nova era

Obra que levou treze anos para ser concluída esmiúça os personagens e joga luzes sobre a popularização do gênero, feita por nomes que sofreriam com o preconceito em seu meio

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

08 Dezembro 2017 | 06h00

O samba-canção nasceu, se criou e cresceu nas boates do Rio, mas algo o fez transbordar a essas delimitações para que se tornasse a música mais importante do Brasil desde 1946 até o surgimento da Bossa Nova, em 1958. Doze anos em que ídolos de massa foram erguidos e histórias de desamor contadas para abastecer o cancioneiro mais longevo da música brasileira. As luzes acabam de ser colocadas sobre a época que potencializou a paixão do brasileiro pelo romantismo.

Aos 84 anos, o musicólogo e jornalista Zuza Homem de Mello entrega um de seus principais serviços à memória do País. Copacabana – A Trajetória do Samba-Canção (1929-1958), fruto de 13 anos de pesquisa sobre o assunto, atesta a transição que o gênero representou na despedida do velho testamento da música brasileira, iniciada no início do século 20, para o novo, com a chegada da Bossa. Um esmiuçador de fatos, destrinchando boatos e revelando histórias, Zuza remonta um período sem preocupar-se com o anedotário da boemia carioca. “Não se trata de um livro sobre a vida noturna do Rio. É sobre o samba-canção.”

O menino que passa férias em Copacabana nos anos 1950 descreve a região que colocaria o Brasil no mundo. “Mais do que um bairro, mais do que uma praia, era uma agregação de seres que se entendiam, num lugar autônomo onde se vivia regiamente sem atravessar o túnel, sem ver a cor do Leblon ou Ipanema”, finaliza o primeiro capítulo. “Copacabana tinha música própria, o samba-canção.”

O que nascia nas boates de Copa, depois do fechamento dos cassinos por ordens do governo federal, era grande demais para ser apenas música de boate. As antigas orquestras, de repente, eram dissolvidas em um ato político e seus músicos migravam para os pequenos palcos dos hotéis. Um novo formato de canção se apresentava, primeiro, para uma elite intelectual, até surgirem “os fracassados do amor”. Um dos capítulos mais iluminados se chama O Refúgio Barato dos Fracassados do Amor. 

Os cantores populares que bebiam na mesma fonte de sambas-cancionistas cheios de classe, como Dick Farney, Johnny Alf e Tom Jobim no início de carreira, vão surgindo com os primeiros cases de sucessos fonográficos nacionais, expandindo o território do gênero. Ao mesmo tempo em que nomes como Herivelto Martins, Cauby Peixoto, Angela Maria, Dolores Duran e Adelino Moreira se tornavam os primeiros ídolos de massa, recebiam nos mesmos ombros uma carga pesada de preconceito da qual jamais se livrariam.

Ao escrever separando uns de outros, e mostrando que samba-canção não é um aquário com peixes da mesma cor, Zuza também se coloca. “Os filhotes da vertente mais conservadora do gênero, menos preocupada com a inovação, geraram o que mais tarde ficou conhecida como música brega, depois de ter sido taxada de cafona”. O autor segue dizendo que, “por trás desse desprezo fácil, ignora-se a necessidade de uma decomposição mais acurada dos três componentes essencialmente musicais – ritmo, harmonia e melodia – bem como do quarto elemento que distingue a canção, a letra.” Ao repórter, ele fala o que considera essencial. “As pessoas precisam ouvir sobre aquilo de que falam.” A força da interpretação também tem peso fundamental na distinção entre homens e meninos, e é aqui que Zuza começa a falar de Herivelto Martins. “O grande público, que não estava nas boates, não queria saber se o autor estava fazendo uma modulação. A periferia recebe a voz desses cantores pela Rádio Nacional.”

O samba-canção, contaminado pelo bolero latino-americano que inventaria a dor do amor em espanhol, não se trata de uma música de amor, mas do anti-amor, ou o desamor, do fracasso, do amor que nunca foi. Um rapaz que compôs muito samba-canção, mas que não é lembrado assim, foi Noel Rosa. E a descrição da obra de Noel por seus dois biógrafos citados por Zuza, João Máximo e Carlos Didier, é a descrição do próprio samba-canção. “... a visão da vida de Noel, em relação ao amor, nada tem de romântica. Não acredita que posa ser amado. Talvez nem acredite que alguém possa amar alguém, o amor sendo sustentado pela mentira, a artimanha, a falsidade, a simulação.”

Um sentimento emocionalmente niilista e ao mesmo tempo arrebatador em versos como “Ninguém me ama, ninguém me quer / Ninguém me chama de meu amor / A vida passa, e eu sem ninguém / E quem me abraça não me quer bem / Vim pela noite tão longa de fracasso em fracasso / E hoje descrente de tudo me resta o cansaço / Cansaço da vida, cansaço de mim / Velhice chegando e eu chegando ao fim”, de Ninguém me Ama, de Antonio Maria e Fernando Lobo, lançada em 1952. Ou em “Negue seu amor, o seu carinho / Diga que você já me esqueceu / Pise, machucando com jeitinho / Este coração que ainda é seu / Diga que o meu pranto é covardia / Mas não se esqueça / Que você foi minha um dia / Diga que já não me quer / Negue que me pertenceu / Que eu mostro a boca molhada / E ainda marcada pelo beijo seu”, de Negue, popularizada por Nelson Gonçalves. “O samba-canção nunca será sequer politizado, nunca entra nisso. Ele será romântico no sentido negativo, se tornará a música dos perdedores.”

Ao falar de Noel, Zuza vai para um aspecto técnico delicado. Tocar samba-canção não é como tocar samba, mas muitos músicos ainda não sabem disso. “Os regionais que acompanhavam Noel não sabiam tocar samba-canção. Até hoje é complicado encontrar músicos que não repicam onde não devem repicar. Apesar de a célula rítmica ser a mesma, o samba-canção é mais lento, mais arrastado, e a tentação sobretudo de músicos cariocas é sair quebrando.”

O capítulo Os Modernistas fecha a obra com mais reflexão sobre o reduzido mas nunca terminado período do samba-canção. “Quando Tom Jobim vai conhecer João Gilberto, ele percebe que vai começar a fazer o mesmo. E Tom fazia samba-canção antes da Bossa. A partir daquele momento, Jobim se aparta do samba-canção e começa a fazer Bossa.” E então, uma nova era começa. “O samba-canção faz a transição para a modernidade.” Uma percepção nas sutilezas que vale como a chave de ouro.

 

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