Contralto francesa abre temporada da Cultura Artística

A contralto francesa NathalieStutzmann abre nesta segunda-feira à noite a temporada deste ano daSociedade de Cultura Artística. Ao lado da pianista IngerSödergren, ela, que é uma das referências da interpretação dolied nos dias de hoje, vai fazer três recitais na cidade, atéquinta, dedicados ao cancioneiro alemão - Schumann e Schubert -e francês - Fauré, Poulenc Debussy, entre outros. O contralto éo timbre mais grave, mais profundo, da voz feminina. O maisincomum também, lembram os dicionários musicais. O que dá vida aesse significado, no caso de Nathalie, é um "que" a mais:"Pode-se dizer que sou uma pessoa de personalidade sombria",brinca. "Me agradam muitos os românticos, o modo como elesviviam tudo, sejam desilusões ou paixões, com muita intensidade,a fundo." De Schubert, Nathalie vai interpretar, no recital dequarta-feira, Winterreise (A Jornada de Inverno), escrito apartir de poemas de Wilhelm Müller. O ciclo, concluído em 1827,representa, por um lado, a história de um amante abandonado quedeixa a cidade do objeto de sua paixão e sai em jornada duranteo inverno; e, por outro, o caminho de um homem assombrado poruma paixão malsucedida em direção à própria morte. De Schumann,Nathalie canta 12 Canções por Justus Kerner, obra baseada nostextos desse poeta: uma combinação que resulta em peças repletasde dor, angústia e mágoa. Elas serão mostradas nos recitais dehoje e quinta, ao lado de melodias francesas sobre o amor,escritas por Fauré, Chausson, Duparc, Debussy e Poulenc. "Todas essas canções falam daquelas sensações que nosacometem no momento em que nos apaixonamos, das dificuldades quesurgem com a sensação fenomenal de estar amando. É o caso doWinterreise, uma peça que esperei a vida inteira para cantar. Àmedida que você avança nessa música linda e nesse sentimentoterrível que ela representa, é como se Schubert nos estivessedizendo tudo aquilo que é preciso saber sobre a vida", dizNathalie. Muitos dos autores presentes nos recitais em São Paulo,em especial Schumann, estão na discografia de Nathalie, o queconfirma também em estúdios sua preferência assumida pelocancioneiro romântico do século 19. O que, porém, não deve dar aidéia de que a esses autores limita-se seu trabalho. A músicaantiga, assim como alguns autores do século 20, além dorepertório operístico, também tem atraído sua atenção. "Cantoaquilo que me toca, aquilo que me inspira de alguma forma. E teresse poder de escolha é muito bom", diz. Poder que ela conquistou após anos de carreira, iniciadaainda na infância. Filha da soprano Christianne Stutzmann, foicom a mãe que ela deu início a seus estudos. Antes de se dedicarinteiramente ao canto, porém, Nathalie esperou que a voz"assentasse". Estudou piano e fagote antes de, aos 17 anos,levar adiante o que considera sua verdadeira vocação. "O estudodo piano, do fagote, de teoria musical, foi fundamental. Quandose canta, por exemplo, Mahler, com uma orquestra, é importanteter uma visão mais ampla da partitura. O mesmo em cançõesacompanhadas pelo piano: conhecer o instrumento ajuda muito, épraticamente metade do processo de construção de uma visãoartística." Para Nathalie, ainda mais nos dias de hoje, esse é umdiferencial que deveria estar nas mentes de qualquer cantor eminício de carreira. "A concorrência é enorme. Belas vozessobram, não são difíceis de encontrar. O que faz a verdadeiradiferença é o uso que o cantor dá a seu material vocal, o que éinfluenciado diretamente não só por um conhecimento musical maisamplo, como também pelo estudo de línguas, pelo trabalhodedicado de compreensão do texto." Em um recital como os que ela fará em São Paulo, essashabilidades tornam-se especialmente importantes. "Você está ali ao lado da pianista, e a execução musical não depende de nada anão ser de você. Você está nua, tem de ser honesta. E essahonestidade só ocorre quando você não é tímida com relação aseus próprios sentimentos e possui uma relação clara com a obra,com a história que você está ali para contar." Nathalie afirma não ter grandes referências no seutrabalho como cantora, mas os nomes que aparecem ao longo daconversa mostram um aguçado gosto musical: a contralto KathleenFerrier - "ouvi para descobrir o que era esse tipo de voz" -,Christa Ludwig, Brigitte Fassbaender - "mulheres que cantaram oWinterreise, normalmente interpretado por homens" -, e o baixoalemão Hans Hotter, com quem estudou alguns anos. Entre ospianistas, tece elogios, entre outros, a Inger Södergren eAlfred Brendel.ServiçoNathalie Stutzmann e Inger Södergren. Segunda, quarta equinta, às 21 horas. De R$ 90 a R$ 180. Teatro CulturaArtística. Rua Nestor Pestana, 196, tel. (011) 3258-3616.Patrocínio: Bovespa, Telefônica e Votorantim

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