Contra a escravidão, chame Caetano Veloso

Caetano Veloso voltou a ser Caetano Veloso. Mudo por seis meses, decidido a dar um baile na imprensa, ele só quebrou o silêncio nas últimas semanas, para divulgar um novo disco. E voltou com a corda toda. A partir de amanhã, até domingo, estará no DirecTV Music Hall para iniciar temporada de lançamento do disco Noites do Norte, muito elogiada em sua passagem pelo Rio. Incansável defensor dos artistas "representantes de fenômenos comerciais", Caetano faz um protesto indignado contra o preconceito "Este sentimento é uma loucura quando vem justamente dos defensores do rock", protesta. "Você glorifica o Elvis Presley e quer matar a Daniela Mercury? Por quê? Por quê?", perguntou alterado ao repórter da Agência Estado, na entrevista concedida na sede da gravadora Natasha, de sua mulher, Paula Lavigne, no bairro carioca da Gávea. Isso não quer dizer que ele esteja de bem com todos os artistas. Queixou-se de músicos, críticos e até de uma parcela dos espectadores que considera "católicos, horrendos e conservadores", e bateu pesado em Zeca Baleiro e Simone. O primeiro por ter composto uma das músicas "mais detestáveis de todos os tempos" aos seus ouvidos de compositor. A segunda, por tê-la regravado. Na área da política, Caetano comenta a vontade de ACM, "que morreu pela boca", de ser dono da Bahia e revela simpatia por Ciro Gomes para as eleições presidenciais de 2002. Agência Estado - Você ignorou os jornais e lançou o disco com uma entrevista divulgada em seu site, para quebrar a forma convencional como a imprensa trata os álbuns novos. Você acha que seu gesto mudou alguma coisa? Caetano Veloso - Seria muito difícil isso mudar a estrutura do ritmo da imprensa, mudar esta briga pelo furo que tanto prejudica o jornalismo atual. Mas acho que minha atitude pôde contribuir para uma discussão. Essa atitude fez também com que poucas pessoas soubessem que você havia gravado um disco. Sua visibilidade foi reduzida. Não foi uma perda para você? É, notei, sim, que estive mais apagado. Mas achei até bom. Não fiquei na primeira página dos cadernos culturais, como geralmente fico. Me senti melhor. O show, agora sim, passa a funcionar como propaganda do disco. E fiquei surpreso com a boa aceitação a ele, que é mais difícil que o anterior. Quando você diz que se sente melhor em páginas internas.... Eu me senti melhor àquela altura. Estar em páginas internas foi melhor do que nas capas de sempre. Mas as "capas de sempre", publicadas recentemente pelos grandes jornais do Rio, só falaram bem de seu estréia. Essa babação que não se aprofunda não é também um despreparo? Minhas críticas com relação ao despreparo dos jornalistas valem também para os que falam bem de mim. Muitos comentários são pertinentes, mas não me entusiasmo com simples admirações, sem aprofundamento. Você defende Sandy, Alexandre Pires e canta ´Um Tapinha não Dói´. Ao mesmo tempo seu disco grita contra as formas de escravidão. Os artistas que defende não são grandes escravos de uma fórmula comercial? (Caetano ouve a pergunta, faz uma pausa e começa a se alterar) Olha, comercialismo em música popular sempre houve. É natural da indústria.Eu não defendo todos os artistas. Me posiciono contra o preconceito. Este sentimento é uma loucura quando vem justamente dos defensores do rock. Meu Deus! Rock era o lixo do lixo do lixo. Você glorifica o Elvis Presley e quer matar a Daniela Mercury? Por quê? Por quê? (Caetano se altera). No rock há uma postura rebelde. O que irrita nos modismos é a repetição das mesmas fórmulas. É uma lei do mercado. Os artistas e as gravadoras ficam tentando tirar o máximodesta repetição para terem lucro. E não cabe ao artista ir contra isso? Por que a música popular dos americanos é a melhor do mundo? Porque eles nunca ficaram com esta frescura que a gente quer ficar aqui no Brasil. Moralista, católica, horrorosa. Você ouviu alguma vaia quando Celine Dion cantou aquela música insurportável do Titanic no Oscar? Mas aqui vaiaram a Vanessa Camargo porque acham que ela não é chique. Se você seguisse a lei de mercado teria feito uma nova ´Sozinho´ para vender 1 milhão de cópias. Sozinho é uma canção que adoro e que entrou no disco por acaso. Vender 1 milhão de discos é espetacular, mas não dou a mínima se vender 100 mil. Meu filho, digo estas coisas porque não sou escravo. Escravos não dizem o que digo. Mas você defende escravos do mercado. Mas não faz mal. O Elvis Presley foi o maior escravo do mercado. E foi uma das pessoas mais fundamentais para o desenvolvimento da música popular. Com este pensamento a elite brasileira continuará (com um berro) pequena! É contra isto que me ponho. E ninguém me abala. E quando há uma reação hostil do público? Você foi vaiado no Rio ao cantar ´Um Tapinha Não Dói´. Todas as noites em que canto esta música vaiam. É a mesma coisa. "A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil" (cita frase de Joaquim Nabuco). Há duas questões sobre a música ´Rock´n´Raul´. Primeiro: houve fãs de Raul Seixas que ficaram indignados com a história de que ele tinha "vontade fela da puta de ser americano". É, alguns não gostaram. Mas o Raul era um tipo daqueles que se identificaram com o rock-and-roll imediatamente. Queria ter aquela vida, andava com calça americana. Fazia rock, cantava em inglês. Eu, Gil, Edu Lobo somos de outro tipo. A música então é mais uma crítica que uma homenagem? Não, imagina! É uma homenagem. O rock veio a ser importante para mim nos anos 60. Raul se tornou um grande autor de música popular no Brasil. Mas quando uma letra como essa aparece em um disco que fala de escravidão, a idéia que passa é a de que Raul, assim como "os mano" do rap citados na mesma letra, são escravos de um ideal importado, irreal. Mas é essa identificação que fez dos rappers uma novidade importantíssima. Eles tematizam a questão racial como ninguém havia feito. E só fizeram isso porque tiveram vontade de imitar os americanos. A outra questão é a desavença com Lobão, que você cita como o ´Lobo Bolo´. Viu a música que ele fez como resposta a você? Cara, eu adoro a música que Lobão fez para mim. Deus do céu, é uma coisa linda. Tudo o que ele diz bateu fundo pra mim, tudo certo. Gostou mesmo? Até de ouvir que você "acalenta bundões, montes de manés que sob sua égide se transformam em gênios"? (Caetano fica sério e muda o tom). Essa parte não é das minhas preferidas. Não é ruim, mas não é das minhas favoritas. Ele aí se identifica com essa crítica que fazem a mim por ser receptivo aos fenômenos comerciais da música brasileira. Ser considerado um artista de MPB ainda o incomoda? Este termo é um resto chato da tentativa da elite brasileira de se manter pequena. Não quero fazer parte disso e nunca vou fazer. Mas não foram os próprios artistas da MPB que se distanciaram dos mais populares durante anos? Mas falo estas coisas contra os artistas mesmo. Contra você mesmo também? Que passou anos sem querer saber dos mais populares? Eu? Eu cantei com Odair José Vou Tirar Você Desse Lugar em 1973. Me vaiaram horas. Foi quando disse "não há nada mais Z do que a classe A". Sou macaco velho dessa briga. Podem me dizer que sou populista, que deveria ouvir música ultra-refinada. (Caetano se altera) Podem dizer o que quiser que eu não me abalo! O que você tem escutado de melhor e de pior? Um sujeito educado e maduro deve agir como Chico Buarque, não dar palpites sobre o trabalho dos outros. Como não sou educado ou maduro, falo mesmo. Shows que adorei foram o do Nação Zumbi, o do Tom Zé e o de Lulu Santos. O disco da Rebecca Mata é muito bacana. E de ruim? Quer que eu diga mesmo? Bom, odeio esta música que o Zeca Baleiro fez que fala de lenha, sei lá o quê... (Lenha). A Simone gravou e ficou mais horrível. Ele cantando é suportável, mas com ela é horrendo. Pronto, falei. Deu um certo alívio não ter se posicionado a favor de Antônio Carlos Magalhães antes de a bomba estourar? E por que eu me posicionaria a favor dele? Ele é um político de grande competência, mas tem características ruins. Quer um exemplo? Ele apoiou um candidato chamado Clériston Andrade ao governo da Bahia. Conhece Clériston? Nem os baianos. Clériston morreu em um acidente de helicóptero e ACM mandou fazer um monumento a ele. Isso é abuso de poder. Ele age como se fosse dono da Bahia. A Bahia não tem dono. Ninguém é meu dono. Quem para presidente? Eu gosto do Ciro Gomes. Conheci ele no Ceará e gostei, mas... sei lá. Caetano Veloso em ´Noites do Norte´. De amanhã a domingo e nos dias 6, 7 e 8 de julho. DirecTV Music Hall (Av dos Jamaris, 213. Tel.: 5643-2500) Ingressos: de R$ 65 a R$120.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.