Continental Breakfast é destaque de evento musical

Além do olhar centrado sobre a efervescente produção musical latino-americana, uma característica forte do Mercado Cultural é a experimentação. Ali se realizam encontros e se vêem atrações que dificilmente ganham espaço em outros eventos brasileiros. A experiência mais radical desta edição foi o coletivo Continental Breakfast, formado pelos percussionistas Arto Tunçboyaciyan (Armênia), Karim Ziad (Argélia), Aziz Sahmaoui (Marrocos) e Ramiro Musotto (argentino radicado na Bahia).A apresentação programada para sábado no Teatro Castro Alves era uma das que mais geraram expectativa e dúvida. Musotto, que acaba de lançar seu segundo álbum-solo exclusivamente na Argentina, caiu "de pára-quedas", como ele mesmo confessou depois do show, mas não fez por menos. Arto, Karim e Aziz já trocaram experiências quando integraram o grupo do jazzista Joe Zawinul. Num show marcado por improvisações, que se encerrou assinalado como uma experiência das mais radicais, eles exibiram imenso talento individual. Vez ou outra instrumentos de corda de sonoridade oriental quebravam a supremacia dos tambores de diversas origens, timbres e coloridos.Arto, visivelmente o de maior potencial criativo, também teve como trunfo sua verve humorística e brilhou em solos. Teve até seu momento Hermeto Pascoal, em que extraiu sons inusitados de uma panela, o que levou o não menos humorado Karim a fazer piada sobre a "cozinha" (como se chama a ala rítmica de uma banda).O primeiro show do palco principal do Mercado foi o de Ceumar e Dante Ozzetti na quinta-feira. A cantora e o compositor mostraram o repertório de seu recente álbum Achou!, com canções de Dante com parceiros como Luiz Tatit, Zeca Baleiro e Zélia Duncan, entre outros. O público, que se comportou um tanto friamente no início, acabou se empolgando e provocou um certo tumulto na saída para conseguir comprar o CD.O Mercado Cultural, que terminou na madrugada de segunda para terça com um luau em Itapuã, contou com menos verba, menos atrações e menos público do que no ano passado, mas isto não foi impedimento para bons resultados. A última etapa desta sétima edição previa a reunião de músicos brasileiros, como os integrantes do grupo A Barca, e internacionais com as comunidades dos bairros de Salvador.Levar cultura a crianças e jovens cuja maior preocupação é não passar fome é um desafio. A rara oportunidade de ganhar uma breve exposição cria expectativa e entusiasma esses jovens, como se viu em algumas funções na periferia. Convencer a quem tem o poder de investir nesse potencial leva tempo, mas, como diz Benjamin Taubkin, "a gente não pode desistir".

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