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Consumo de funk brasileiro cresce fora do País e gênero vira sucesso mundial

Artistas como MC Kevinho, Anitta e MC Fioti ganham o mundo e aproveitam o bom momento para tentar quebrar o preconceito em relação este tipo de música

João Paulo Carvalho, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2018 | 06h00

Conhecido de longa data dos brasileiros, um ritmo musical tem agitado as noites de Milão. Referência de charme e elegância, a cidade italiana se rendeu à batida do funk brasileiro. O pancadão, como é popularmente conhecido, é tocado à exaustão nas casas noturnas mais badaladas de lá. O mesmo sucesso é visto em outras pistas pelo mundo. MC Kevinho, Anitta e MC Fioti estão entre os prediletos do público estrangeiro. 

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Criado no final da década de 1970 na periferia do Rio, o ritmo de batidas frenéticas que mescla elementos da black music norte-americana, incluindo o rap, tem sucessos milionários e críticos ferrenhos. Em 2017, um abaixo-assinado enviado ao Senado pediu sua criminalização. O documento reuniu mais de 20 mil assinaturas. Entre os críticos, é comum ouvir que o funk estaria entre os responsáveis pelo declínio moral e cultural do Brasil por causa da linguagem que fala abertamente sobre sexo e malandragem

Controvérsias à parte, entre 2016 e 2018, o consumo de playlists de funk brasileiro aumentou 3.421% fora do País, segundo um levantamento recente feito pela plataforma de streaming Spotify. O crescimento global (incluindo o Brasil) foi de 4.694%. Artistas como Anitta, MC Fioti, MC Kevinho e MC Zaac figuram entre os mais ouvidos mundo afora em 2018. Eles, aliás, fazem parte de uma nova linguagem do funk, justamente a que está fazendo sucesso no exterior: mais pop e com potencial comercial, que conta com uma superprodução.

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Ainda de acordo com os dados do Spotify, a faixa mais ouvida do ano é Bum Bum Tam Tam, de MC Fioti. No final de 2017, a música ganhou um remix com a participação do colombiano J. Balvin e do rapper americano Future. Vai Malandra lidera o ranking dos funks mais ouvidos de todos os tempos. Curiosamente, a canção também é uma colaboração internacional: Anitta, MC Zaac, Tropkillaz, DJ Yuri Martins e o rapper americano Maejor. “É muito gratificante ver o funk crescendo dessa forma. É um movimento importante e que valoriza os nossos artistas. Há um tempo, o mercado já indicava que isso aconteceria, já que os produtores gringos estavam cada vez mais interessados no nosso ritmo. Fico feliz e grata por participar deste movimento e de ver artistas brasileiros tão talentosos em evidência lá fora”, diz Anitta.

Em junho, Anitta deu início à sua primeira turnê pela Europa. A cantora passou por países como França, Espanha, Inglaterra e Portugal, onde se apresentou na última edição do Rock in Rio Lisboa. Com um show arrebatador, ela lotou a Cidade do Rock na capital portuguesa e atraiu os holofotes da imprensa internacional.

Anitta, no entanto, não é o único grande nome da música brasileira a colocar o funk no topo. Em 2017, Caetano Veloso apareceu em um vídeo na internet cantando na íntegra as letras de DJ Toca Aquela, de MC Novinho, e Quem Me Viu Mentiu, de MC Maneirinho. Caetano, por sinal, já defendeu o gênero por diversas vezes. Em entrevista ao programa Bagulho Louco com Mr Catra, no Multishow, em 2016, ele falou sobre o assunto: “Os batuques do samba eram proibidos e interditados pela polícia. Sem falar no candomblé. O funk tem contribuído para realidade brasileira tanto quanto o samba”. No mesmo ano, Caetano voltou a falar sobre o tema. “O funk no Brasil hoje é uma coisa totalmente brasileira. E as letras, que às vezes são muito obscenas, ficaram cada vez mais criativas. Os efeitos sonoros também”, afirmou ele à BBC, para o documentário Tropicália - Revolution in Sound.

Madonna chegou a postar um vídeo das filhas Stelle e Estere cantando a música Olha a Explosão, hit de MC Kevinho, no carro. Na legenda do vídeo, publicado em sua conta oficial no Instagram, a rainha do pop escreveu: “Treinando nosso português”. “Zerei a vida! Me sinto honrado em ver a família da Madonna curtindo nosso funk. Eu fiz uma turnê na Europa e confesso que foi um dos momentos mais lindos na minha carreira. Todas as casas estavam lotadas. Não tinha ideia que iria fazer um show lá fora com tanta gente cantando a minha música. Enxergo esse momento de internacionalização do funk como algo extremamente positivo para quebrar os preconceitos que temos em relação a esse gênero musical. Acredito que os estrangeiros foram contagiados pela batida, a alegria e a energia que o funk transmite”, conta MC Kevinho, ao Estado. O jovem funkeiro de apenas 19 anos é um dos destaques da nova geração do chamado funk ostentação de São Paulo. Os vídeos do músico colecionam recordes de visualizações no canal Kondzilla, especializado na superprodução de clipes de funk. No YouTube, o canal é o maior do Brasil e o quinto do mundo.

Muito da explosão do funk pelo mundo tem relação direta com grandes artistas da música pop atual, que passaram a incorporar elementos do gênero em sua sonoridade. Nomes como Jennifer Lopez, Baya e o duo israelense Static & Ben-El Tavori entraram de cabeça no gênero. “O funk também tem bastante semelhança com sons latinos, como o reggaeton e o dembow. Muitos dos latinos que residem nos EUA devem integrar uma porção desses ouvintes no país. Artistas influentes do mundo latino, como Jennifer Lopez, tem incorporado o estilo em singles recentes. Acreditamos que vamos ver cada vez mais essa mistura: nomes latinos bebendo da fonte do funk”, afirma o DJ e produtor brasileiro André Laudz, do duo Tropkillaz, formado ainda pelo também DJ e produtor Zé Gonzales.

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Estrelas do pop apostam no gênero

Quando El Anillo, a nova música de trabalho da cantora norte-americana Jennifer Lopez foi divulgada em abril deste ano, não demorou muito tempo para que as primeiras comparações com o funk brasileiro surgissem. As batidas frenéticas, o rebolado em abundância, tudo ali remetia ao ritmo tupiniquim. A ousadia de J.Lo deu resultado e o videoclipe da música ultrapassou a marca de 140 milhões de visualizações no YouTube. Um ano antes, em 2017, a influência do funk carioca foi tão grande que chegou até Israel. A dupla israelense Static & Ben-EL Tavori lançou a canção Tudo de Bom. O hit alcançou o topo das paradas de sucesso de Tel-Aviv, em Israel. Além das batidas inconfundíveis, havia algumas palavras aleatórias em português: cachaça, caipirinha, gatinha, favela e batuque. Além dos dois exemplos citados acima, produtores renomados da cena internacional também estão apostando no funk. Vai Malandra, música mais ouvida no Spotify, segundo dados do serviço de streaming, é uma parceria de Anitta, MC Zaac, Tropkillaz, DJ Yuri Martins e o rapper norte-americano Maejor. Maejor, inclusive, colaborou com MC Livinho na faixa Rebeca (que também conta com MC Gerex).

QUEM MAIS OUVE FUNK FORA DO BRASIL

1º Estados Unidos

2º Portugal

3º Argentina

4º Paraguai

5º Reino Unido

6º França

7º Chile

8º Espanha

9º Canadá

10º Itália

11º Alemanha

12º México

FUNKS MAIS OUVIDOS

1º Vai Malandra (Anitta)

2º Olha A Explosão (MC Kevinho)

3º Você Partiu Meu Coração (Nego do Borel)

4º Agora Vai Sentar (MC Jhowzinho e MC Kadinho)

5º Vai Embrazando (MC Zaac)

6º Bum Bum Tam Tam (MC Fioti)

 7º Malandramente (Dennis DJ)

8º Deu Onda (MC G15)

9º Cara Bacana (MC G15)

10º Automaticamente (MC Léléto)

ARTISTAS MAIS POPULARES FORA DO BRASIL

1º Anitta

2º MC Fioti

3º MC Kevinho

4º MC Zaac

5º DJ Yuri Martins

6º Dennis DJ

7º Nego do Borel

8º MC G15

9º MC Jhowzinho e MC Kadinho

10º Jerry Smith

A CRONOLOGIA DO FUNK NACIONAL

Anos 1970

O funk surge nos subúrbios do Rio na década de 1970. O gênero bebe da fonte do miami bass e do freestyle.

Anos 1980

DJ Marlboro ganha uma bateria eletrônica de presente do antropólogo Hermano Vianna. O uso do instrumento deu início aos primeiros hits, popularizando os bailes funk.

Anos 1990

Acontece a primeira onda de sucesso do funk carioca com Claudinho & Buchecha.

Anos 2000

Novo estouro do funk carioca com os sucessos Cerol Na Mão e Eguinha Pocotó.

Anos 2010

O funk ostentação de SP ganha projeção nacional. O principal nome é MC Guimê. 

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