Caitlin Ochs/The New York Times
Caitlin Ochs/The New York Times

Conheça as garotas de 11 anos cuja música encantou a Filarmônica de NY

Ao apresentar as composições de Camryn Cowan e Jordan Millar, público aplaudiu de pé

Joshua Barone, The New York Times

11 Agosto 2018 | 15h49

Foi uma estreia daquelas que a maioria dos músicos nem ousa sonhar: ter suas composições executadas por uma orquestra de classe internacional, para dezenas de milhares de pessoas.

Em seu auditório ao ar livre, em junho, a Orquestra Filarmônica de Nova York apresentou obras de duas garotas de 11 anos, Camryn Cowan e Jordan Millar. O público aplaudiu de pé. 

A crítica de Anthony Tommasini, do New York Times, foi efusiva.

A presidente da Filarmônica, Deborah Borda, afirmou: "A plateia ficou claramente impressionada e deliciosamente surpresa". 

E depois do sucesso, para onde foram elas? Cowan e Millar, duas  estudantes do Brooklyn que fazem parte de um programa da Filarmônica chamado Very Young Composers... voltaram para as aulas. 

"Ainda tenho muito pela frente", disse Cowan, "mas espero continuar fazendo o que mais amo: música."

Ambas se expressam com clareza e objetividade. Não vacilam diante de temas inspiração, bloqueio de escritor e diferença de gênero na música clássica. 

Explicam com confiança o que são seus trabalhos, escritos originalmente para o programa temático Harlem Renaissence, no início do ano. Cowan, que tinha então 10 anos, disse que sua composição Harlem Shake é um trabalho para sintetizador, mas com improvisos de saxofone que evocam o passado do bairro.

O Boogie Down Uptown de Millar mescla a sensação de alguém que chega de metrô ao Harlem pela primeira vez com texturas musicais inspiradas nos quadros do pintor afro-americano Aaron Douglas.

(Apesar do jeito sério, as duas ainda são crianças: segundo  Millar, o fascínio pela arte de Douglas vem de seu desenho favorito de Disney, A Princesa e o Sapo, inspirado na estética dos quadros do pintor.)

Eu disse a Millar que seu Boogie lembra muito a música de Leonard Bernstein. Ela respondeu que, "sem querer ofender", não estava familiarizada com o compositor. Entretanto, mesmo que Bernstein não tenha inspirado diretamente suas melodias,  ele estabeleceu as bases para o envolvimento de Millar com a Filarmônica.

O compositor Jon Deak - principal baixista da Filarmônica e fundador do Very Young Composers - disse que a iniciativa foi inspirada em Bernstein e seu programa de TV Young People's Concerts. Foi também inspirada na rede venezuelana de orquestras e corais infantis e juvenis conhecida como El Sistema, do músico José Antonio Abreu, falecido no início do ano.

A ideia por trás de Very Young Composers, segundo Deak, é a de que todas as crianças são criativas. "As pessoas me perguntam se eu já descobri o próximo 'Mozartzinho' e eu digo que sim, descobri dezenas deles. Estão por toda parte. Só precisamos ouvi-los."

Os participantes do programa vêm de 15 escolas associadas de Nova York (Cowan frequenta a PS 11 e Millar a Poly Prep Country Day School). Os alunos começam com exercícios rítmicos e aprendem teoria musical de um modo abrangente, usando suas próprias palavras para descrever, por exemplo, intervalos musicais, antes de aprender o que são e como são usados. Depois, passam para a escrita musical mais complexa, discutindo entre si e apresentando trabalhos no Young People's Concerts

No processo, disse Deak, os estudantes têm que se tornar líderes. "Imagine uma criança de 10 anos que mal chega aos joelhos do baixista olhando para ele e dizendo 'está rápido demais', ou 'tem alguma coisa errada nessa nota'. Eles precisam  defender suas composições - e como defendem!"

Cowan e Millar fizeram exatamente isso nos ensaios com a Filarmônica.

"Fiquei um pouco assustada porque parecia que os músicos já conheciam a peça", lembrou Cowan. "Mas disse a eles: 'Podem acelerar um pouco nessa parte?'. No geral, porém, acho que a execução foi perfeita." 

Nas aulas do Very Young Composers, quando os estudantes compartilham seus trabalhos o clima é de solidariedade e apoio. "Alguns, porém, se destacam com peças que 'decolam' mais que outras", disse Deak. "É o caso dessas duas garotas."  

Fora do programa, Cowan é violinista e pianista; Millar toca piano e clarinete e canta no Brooklyn Youth Chorus. Em casa, nenhuma das duas ouve muita música clássica. Cowan gosta de Bob Marley, Beyoncé e Cardi B. Millar está mais para os anos 1990: TKC e Destiny's Child. 

Pensam em incorporar esses estilos a suas composições? Millar disse que pensa, "mas até agora só fiz isso em banda de garagem." 

Para ela, a parte mais difícil de compor é ter a ideia certa. "Lembro de que já sentei no piano sem saber o que escrever", disse ela, com a exasperação típica de um experimentado artista.  

Estatisticamente falando, as duas têm pela frente uma dura batalha no campo da música clássica, não apenas como negras, mas como mulheres entrando numa área que continua sendo um desafio para compositoras. Mas Millar vê na execução de suas composições pela Filarmônica um sinal de mudança - "e a sociedade precisa mudar". 

Cowan interveio, como se já tivesse pensado muito no assunto: "Mulheres às vezes são menosprezadas nas orquestras, ou seu talento não é notado. Por isso, acho que eu ter estado no palco indica uma boa mudança. Outras pessoas, crianças ou adultos, talvez não tenham a mesma oportunidade. Acho que podemos servir de inspiração para elas." / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ   

 

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