Marcus Veras
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'Conexão Latina' abre as cortinas das Américas ainda desconhecidas pelo Brasil

Programa para a internet, produzido pela jornalista e produtora Belinha Almendra, chega à 20ª edição promovendo uma degustação incitante para se saber mais das sonoridades hispânicas

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2020 | 05h00

Saber o que se passa pelas costas do Brasil ao subir pelo cone andino, desbravar a banda ocidental de Chile, Bolívia e Peru, atingir o “norte do Sul”, de Equador, Colômbia e Venezuela e transpassar a América Central para chegar ao México, entrar em Miami ou transladar-se às ilhas do Caribe até o santuário sonoro de Cuba. O Brasil segue com as costas viradas para a música de uma vizinhança que não para de renovar-se e que tem a atenção rara de uma jornalista e produtora brasileira que, desde 1992, a assumiu com paixão e desafio.

Depois de manter por três anos o programa Conexão Latina da extinta Rádio Globo FM, proposto por ela quando se festejavam os 500 anos de descobrimento da América (1492), Belinha Almendra passou a mirar suas produções para a internet e voltou às latinidades desde o começo da quarentena. Na próxima sexta (25), ela completa 20 edições de Conexão em seu canal no YouTube, renovadas todas as sextas. Cada programa traz sempre três canções com informações sobre os artistas e uma curadoria que usa a liberdade temporal para imprimir personalidade ao projeto.

Na edição mais recente, Belinha apresentou o cubano Alain Perez, cantor e instrumentista cubano que atuou como contrabaixista do violonista espanhol Paco de Lucía, morto em 2014, por dez anos antes de voltar a viver em Cuba, em 2017. Perez canta uma das faixas do álbum El Alma del Son, que fez para homenagear o Trio Matamorros, em 2015. O Matamorros, uma espécie de Os Oito Batutas da música cubana, revelou e ensinou muito a Beny Moré, que já foi lembrado por um dos programas. A mesma edição mostra também o trabalho do espanhol de Málaga Juan Gomes Kanka, o El Kanka, de 37 anos, considerado um dos expoentes renovadores das tradições espanholas, com Después de Esta Mañana. E fecha com uma gravação de 1958 do rei do mambo, Tito Puente, Saca Tu Mujer. Tito, de ascendência porto-riquenha mas nascido em Nova York, morreu em 2000, aos 77 anos. Ao fim, fica claro o que Belinha faz. Ela joga as iscas, deixa o ouvinte fazer sua degustação e o provoca seriamente a desbravar por si o que puderem de cada um desses nomes. De El Kanka, por exemplo, descobre-se no Spotify a ‘sabrosíssima’ Zamba para Mi Padre, um single que prenuncia um novo álbum promissor depois de quatro discos lançados desde 2013.

“O programa tem muito essa ideia, mesmo: revelar o que fui descobrindo sobre a música ‘hispano hablante’ a partir do final dos anos 80. Eu viajava para a América Latina e para a Espanha e me dava conta de que sabia pouco sobre a cena musical tão rica desses lugares. Nos anos 80, a música latina no Brasil era tida como brega, sem que as pessoas soubessem sequer do que estavam falando”, ela conta. Belinha fala que sente uma abertura maior à cultura hispânica de 1980 para cá, ainda que os artistas que entrem no Brasil sejam de frentes mais pop como o reggaeton. “O universo latino virou um mercado atraente para os brasileiros e, ao que parece, mesmo que ainda entrem mais o lado comercial do que o que se produz lá fora, estar com a porta aberta é sempre bom. Eu aproveito e entro com a minha seleção, a minha seleção musical particular.” Ela diz não se pautar pelas modas. “Como diria Moraes Moreira, a aposta é a graça da mistura, porque música é uma experiência que precisa de liberdade.”

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