Concerto recupera peça de Nepomuceno

A Orquestra Sinfônica Municipal e o Coral Lírico Municipal, dirigidos pelo maestro Júlio Medaglia, participam nesta quinta-feira, no Teatro Municipal, do terceiro concerto do Projeto Memória Musical, que, com o apoio da iniciativa privada, tem resgatado e editado grande número de partituras e manuscritos de compositores brasileiros. À frente do trabalho de pesquisa está o violinista Erich Lehninger, spalla da Orquestra do Teatro Municipal do Rio, e o projeto tem a formatação da Nery Cultural.A orquestra abre o programa com As Uyáras, peça composta em 1895 por Alberto Nepomuceno. A peça está em consonância com a ideologia do compositor - considerado por Camargo Guarnieri o "pai da música brasileira"- que, em 1895, afirmou que "não tem pátria um povo que não canta em sua língua". De fato, As Uyáras ficou conhecida como uma das primeiras peças eruditas brasileiras a apresentar o texto do coro em língua portuguesa.O ponto de partida da peça é uma lenda amazônica assinada por Mello Morais Filho, poeta e etnógrafo baiano que viveu na passagem do século passado. A princípio, a intenção do compositor era criar um poema coreográfico, o que se tornou inviável uma vez que o gênero tinha pouca aceitação na sociedade brasileira da época. O resultado foi uma obra sinfônico-coral dividida em duas seções, a primeira destinada à orquestra e a segunda com a participação do coro feminino.A estréia da peça deu-se em 1897, mas o tempo e a precariedade dos arquivos brasileiros fizeram com que as partituras fossem perdidas anos depois. Décadas mais tarde, Villa-Lobos apresentou a peça com uma orquestração sua, que também desapareceu. O compositor Francisco Mignone, após tentativas de músicos como Abdon Lyra e Guerra Vicente, estabeleceu uma nova orquestração em 1980. Será essa a partitura utilizada pela Orquestra Sinfônica Municipal no concerto.Em seguida, aparecem as Cadências para Violino e Orquestra, do compositor carioca Guilherme Bauer. Aluno de Claudio Santoro, Bauer, nessa peça de 1982, compôs uma obra que exige do solista grande técnica e virtuosismo, alternando momentos tonais e atonias. A obra foi composta para a série Música do Século 20, promovida pela Sala Cecília Meireles, do Rio de Janeiro. Desde a composição da obra, sempre coube a Erich Lehninger executar os solos de violino, ao lado de regentes como Claúdio Santoro e Simon Blech.Por fim, Júlio Medaglia conduz a orquestra e o coro na interpretação da "Sinfonia em Si Bemol para Grande Orquestra", "Fanfarra e Coro", única peça do gênero deixada por Leopoldo Miguez. Composta entre 1880 e 1881, a obra foi tocada pela primeira vez em maio de 1882 no Teatro Imperial D. Pedro II.Não se sabe bem por que, mas, desde então, a peça nunca mais foi ouvida. O próprio Miguez teria engavetado a obra apesar da possibilidade de tocá-la quando bem entendesse, uma vez que era um dos mais prestigiados regentes da época e tinha à sua frente a Associação dos Concertos Populares, que ele criou em 1897, com Alberto Nepomuceno.Para alguns musicólogos, Miguez não teria ficado decepcionado com a peça (o que pode explicar o fato de tê-la deixado de lado), uma vez que, de próprio punho, fez várias cópias da redução para quatro pianos, que foram distribuídas a amigos do compositor.De qualquer forma, a peça mostra a preocupação do autor em seguir tendências anunciadas por compositores como Richard Wagner e Franz Liszt, mostrando um diálogo com as formas do período romântico alemão.Orquestra Sinfônica Municipal - Quinta-feira (26), às 21 horas. De R$ 3,00 a R$ 10,00. Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo, s/n.º, tel. 222-8698.

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