"Concerto para Computador e Orquestra" tem estréia mundial

Quando foi criada, a Orquestra Experimental de Repertório tinha como principal intenção inovar e explorar as múltiplas possibilidades oferecidas por um conjunto orquestral. Por isso, ao longo de dez anos de trabalho, o grupo ganhou inimigos, nem sempre contentes com as inovações propostas. Pois os puristas que se preparem, porque, ao lado do compositor brasileiro radicado nos Estados Unidos, Rodolfo Coelho de Souza, a orquestra faz, domingo, no Teatro Municipal, a estréia mundial do Concerto para Computador e Orquestra.Esta é, talvez, a mais radical iniciativa do grupo. "Podem falar que o computador não tem alma, mas seus timbres são completamente diferentes e o que interessa é somar o som dele e da orquestra para descobrir algo novo, diferente", indica o maestro Jamil Maluf, que rege o concerto. Para Rodolfo Coelho, um dos pontos a destacar é a ilusão da fonte sonora. Enquanto a orquestra segue um ritmo e um tema, o computador produz o som de instrumentos brasileiros, como o berimbau. "Em certa altura, é normal se perguntar: como o berimbau produziu determinado som?", indica.Tal situação exige dos músicos um cuidado muito grande. A orquestra precisa estar atenta aos sons produzidos pelo computador e o nível de improvisação é maior. "É essa a dialética da peça: o rigor e a ´perfeição´ do computador dão aos músicos grande liberdade", afirma Rodolfo Coelho. Improvisar, no entanto, é algo complicado para músicos acostumados à partitura. "O músico popular tira de letra a tarefa de improvisar, mas para o músico erudito, infelizmente, é muito difícil", diz o maestro. Do ponto de vista formal, na opinião de Rodolfo Coelho, o concerto segue uma estética próxima do concerto grosso barroco. "O computador não conduz a narrativa, mas, como solista, distingue-se em alguns momentos e mescla-se com o som da orquestra em outros", diz o compositor. O mais importante, no entanto, parece ser introduzir a presença de material brasileiro na peça, sem recorrer a fórmulas fáceis e comuns. "A grande dificuldade está em encontrar a identidade brasileira sem ser nacionalista", diz Rodolfo Coelho.O que possibilita tal concepção é a total liberdade que a música contemporânea oferece. Para Jamil Maluf, o nacionalismo na música surge com a identificação do ouvinte com aquilo que é interpretado. "O público busca a identificação com a obra de arte e quando você poda esse contato, perde a relação com o público". É o caso, por exemplo, de músicos como Gilberto Mendes, com quem Rodolfo Coelho trabalhou e a quem ele se refere como maior influência estética de sua carreira. "Ele soube incorporar todo o caráter de modernidade, sem perder, em obras como Beba Coca-Cola o senso de humor brasileiro", explica Jamil Maluf.Além do concerto para computador, a OER interpreta RitualM, peça do compositor baiano Lindembergue Cardoso, morto prematuramente em 89, aos 50 anos. "Lindembergue tinha uma criatividade fantástica, um gênio; é uma pena que não tenha tido muito tempo para se desenvolver", diz Maluf. Para encerrar o concerto, o grupo toca a Sinfonia n.º 1 do francês Jean Sibelius. "Sua construção de frases, que cria atmosferas românticas, para depois destruí-las, é extremamente audaz e é muito importante que suas peças passem a fazer parte do repertório das orquestras", observa o maestro.O grande destaque da noite, no entanto, é a obra de Rodolfo Colho de Souza. Primeira peça escrita para computador e grande orquestra em todo o mundo, ela se mostra como um grande desafio e uma oportunidade para os jovens da orquestra fazerem a história.Orquestra Experimental de Repertório. Domingo, às 17h. De R$ 2 a R$ 8. Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo, s/n.º, tel. 222-8698

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